Como praticar o diálogo pluralista?

Pierre Babin e Angela Ann Zukowski1, dois especialistas nas suas áreas, escreveram uma obra fundamental, que já citei em artigos e trabalhos reflexivos, e da qual reproduzo agora um excerto que responde à pergunta formulada, sob a denominação de “dez mandamentos do diálogo pluralista”.

1. Fazer clara distinção entre aquilo em que creio sinceramente como pessoa e aquilo que a Igreja professa. Por razões de carácter, evolução e necessidade política, pode ocorrer que eu não esteja em estado de aderir plenamente a este ou àquele ponto mas, por minha adesão à Igreja como baptizado crente, respeito o que a Igreja professa. Dizer: “eu penso que” não é a mesma coisa que dizer “como católicos, cremos que…”. No fim da sua vida, Graham Greene, falando-me de sua fé, reconheceu humildemente: “Eu tenho fé, peço a Deus que me dê as crenças”.

2. Ser respeitoso e tolerante com toda a crença e prática, exceptuando este ponto: matar a vida humana e aquilo que lhe é essencial, a liberdade.

3. Esforçar-se por discernir positivamente os caminhos do Espírito nas diferentes religiões e sociedades. Elas podem fornecer-nos inspiração e ajuda: “compreender”, no sentido evangélico, é o primeiro passo do discernimento.

4. Apresentar a Fé como um apelo: eu vos convido. Eu não vos obrigo a vir e seguir-nos. Não digo: “este é o único caminho”. Digo apenas: “é o caminho que escolhi seguir e creio que é o melhor”.

5. Esforçar-se para construir a comunhão universal, em particular por um compromisso concreto que responda às grandes angústias do nosso tempo, com atenção especial para os excluídos deste mundo.

6. Propor a fé exige também palavras fortes. Diante de situações inumanas é bom que subam em nós movimentos de indignação, até mesmo de cólera, como a de Jesus ao expulsar os vendilhões do Templo; outras vezes, nascerão palavras de exortação, declarações claras. Tais formas, que nos podem separar do grupo por certo tempo, são essenciais à comunicação cristã, na medida em que se situam no interior de um espírito de diálogo e não interrompem a caminhada, de maneira longa e grave, em direcção à comunhão dos seres ou dos organis-mos.

7. Especialmente para as jovens gerações, recusar a retomada dos velhos debates das gerações precedentes. Ser livre e respeitoso diante de questões sobre roupas, ritos, palavras, predominância de sexos, etc.

8. Reconhecer que o grupo católico não é o único a fazer presente o Cristo e o Evangelho. O ecumenismo é uma dimensão permanente em nossas palavras e acções. A prática do ecumenismo passará primeiro por uma acção comum, mais para responder às grandes angústias do mundo, do que por discussões doutrinais.

9. Reconhecer as diferentes sensibilidades religiosas, doutrinais e pastorais na Igreja como vias complementares, aproximações sempre parciais do Deus que ninguém conhece. Não significa que se deva a tudo abençoar, mas distinguir, por entre as diferenças, as vias concretas pelas quais o Espírito nos conduz à Verdade e à harmonia.

10. Antes de tudo, privilegiar a partilha dos bens. A partilha das ideias e das doutrinas deve vir num segundo tempo. Ser pluralista numa cultura mediática é privilegiar o contacto pessoal caloroso, o serviço mútuo, a partilha da refeição e da festa.

1 Cfr. BABIN, Pierre e ZUKOWSKI, Ângela Ann, Mídias, chance para o Evangelho, Ed. Loyola, 2005, pp.201-203.