Livro É sabido que os primeiros relógios nasceram nos mosteiros e conventos. Daniel Boorstin, na sua obra magnífica “Os Descobridores”, dedica um extenso capítulo ao Tempo e escreve: “O começo do relógio moderno na Europa foi coisa que não teve origem em agricultores ou pastores, tão-pouco em mercadores ou artesãos, mas sim em pessoas religiosas, ansiosas por desempenhar pronta e regularmente os seus deveres para com Deus. Os monges precisavam de saber as horas das orações que lhes cumpria rezar”.
Os primeiros relógios, monásticos, anunciavam as horas canónicas. Não tinham mostrador sequer. Eram despertadores que faziam soar as horas canónicas (os momentos definidos pelos cânones ou regras para as orações) junto de um monge, que depois ia tocar o sino grande a convocar a comunidade.
Não admira, por isso, esta frase da apresentação deste pequeno livro: “Os monges são os mestres do tempo”. Tal como não admira que cada vez haja mais pessoas a fazer a experiência de passar dias ou semanas num mosteiro, segundo o ritmo dessa casa/comunidade. Onde os horários são mais rígidos e equilibrados, fruto de uma história de séculos (desde S. Bento, que estruturou o quotidiano dos monges), as pessoas sentem-se livres da opressão das horas da vida moderna. Onde se submetem ao cumprimento escrupuloso do ditado do relógio, têm finalmente tempo para o importante (que, não raras vezes, é ofuscado pelo seu mais atroz inimigo, o urgente).
A obra “Ao ritmo do tempo dos monges” quer ensinar-nos que “o ritmo medicinal do tempo conduz a um ritmo saudável da alma”. Fala muito da vida no mosteiro (um capítulo é mesmo dedicado a um dia normal na abadia de Münsterschwarzach), mas facilmente o leitor percebe que pode aproveitar dessa vivência. As Horas são “anjos que encontramos em determinados momentos, no decurso do dia”. E os anjos, mensageiros de Deus, convidam a libertar o tempo entupido com trabalho.
Ladrões do tempo
Como o tempo é um “bem valioso”, perto do final da obra, Anselm Grün alerta-nos para os ladrões do tempo. Um deles, o telemóvel, que supostamente devia servir para poupar tempo, evitando, por exemplo, a ida à cabina mais próxima: “Aquele que tem o seu telemóvel sempre consigo não consegue fazer mais nada. Telefonam-lhe dos mais variados sítios e interrompem sempre aquilo que ele está a fazer no momento. Por isso, o telemóvel rouba-lhe tempo. Pode transformar-se num verdadeiro tirano.”
J.P.F.
Ao ritmo do tempo dos monges
Anselm Grün
Ed. Paulinas
212 páginas
