Começou ontem, 12 de março, o conclave que vai eleger o sucessor de Bento XVI. Será o 266.º Papa da Igreja Católica. Anel do Pescador
O Anel do Pescador, o carimbo e os selos brancos utilizados no pontificado de Bento XVI para autenticar documentos papais foram inutilizados no dia 9 de março. O novo Anel do Pescador vai ser idêntico ao anterior, com o mesmo desenho de São Pedro a pescar à rede numa barca, mas, naturalmente, com o nome do novo Papa.
Bento XVI
Jospeh Ratzinger será o décimo Papa a conhecer o seu sucessor. O primeiro foi Ponciano, no ano 235. Abdicou por ter sido condenado a trabalhar nas minas da Sardenha. Antes de Bento XVI, o último a conhecer o seu sucessor foi Gregório XII, que em 1451 renunciou, abrindo caminho à eleição de Martinho V para eliminar a divisão (fomentada por questões políticas) entre católicos que obedeciam ao Papa de Roma e ao ‘antipapa’ de Avinhão.
Conclave
Conclave é palavra com origem no latim ‘cum clavis’ (fechado à chave). Na origem, esteve a difícil eleição de Gregório X, que demorou 33 meses, de dezembro de 1268 a setembro de 1274. Foi preciso fechar os cardeais à chave e restringir-lhes os alimentos, mas mesmo assim a eleição demorou. Gregório X estipulou um tempo de espera de 10 dias após a morte do Papa pelos cardeais que vinham de fora e estabeleceu que a reunião tem de decorrer num lugar “fechado à chave” (‘cum clavis’). Em rigor, o conclave atual é apenas o 75.º.
Dentro
O novo Papa deverá ser um dos homens do conclave. Qualquer homem solteiro em comunhão com a Igreja Católica pode ser eleito Papa, mas há mais de 600 anos que o escolhido é um cardeal. O último pontífice vindo de fora do Colégio Cardinalício foi Urbano VI, em 1378.
Europa
A maioria dos eleitores são europeus. Dos 115 que votam, 60 são europeus, 19 da América Latina, 14 de América do Norte, 11 de África, 10 da Ásia e 1 da Oceânia. Os países com mais cardeais, das 48 nações representadas são Itália (28), EUA (11), Alemanha (6), Brasil, Espanha e Índia (5 cada).
Fumo
Os três escrutinadores sorteados no início do processo abrem cada um dos boletins, lendo o seu conteúdo em voz alta. Os votos são perfurados onde está escrita a palavra “eligo” e presos num fio. No final da recontagem são ligados com um nó, colocados num recipiente e posteriormente queimados. Se houver lugar a uma segunda votação, contudo, os votos dos dois escrutínios e os escritos de qualquer espécie relacionados com o resultado de cada escrutínio são queimados em conjunto. Se o fumo que sai da chaminé da Capela Sistina for negro, significa que não houve acordo entre os cardeais; se for branco, foi escolhido o novo Papa.
Gregório XV
A história da escolha do Papa é longa e, com certeza, continuará a sofrer adaptações. Nicolau II, em 1059, determinou que apenas os cardeais participam na eleição. Alexandre III, em 1179, determinou que só será eleito quem tiver uma maioria de dois terços, norma que se mantém. Gregório XV, em 1621, definiu a única modalidade de eleição: voto secreto e por escrito.
Habemus Papam
Uma vez ocorrida a eleição, resta ao novo eleito responder a duas questões: “Acceptasne eletionem de te canonice factam in Summum Pontificem?” (Aceitas a tua eleição, canonicamente feita, para Sumo Pontífice?) e “Quo nomine vis vocari?” (Como queres ser chamado?). O mestre das cerimónias litúrgicas é chamado, desempenhando funções de notário, e redige um documento de aceitação. Dois cerimoniários (assistentes) entram e servem de testemunhas. Este documento entrará em vigor imediatamente depois da sua publicação no jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, por determinação de Bento XVI. Após a escolha do nome, os cardeais prestam homenagem um a um os e apresentam a sua obediência ao novo Papa. O anúncio é feito, em seguida, pelo cardeal protodiácono D. Jean-Louis Tauran, francês, aos fiéis: “Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus papam” (“Anuncio-vos uma grande alegria: Temos Papa”).
Idade dos cardeais
A média de idade dos 115 cardeais do conclave é de cerca de 71 anos. 46 eleitores têm 75 ou mais anos. 19 cardeais tem 65 anos ou menos. Os dois mais novos são D. Luis Antonio Tagle, filipino de 55 anos, e D. Baselios Thottunkal, da Índia, com 53 anos de idade.
Juramento
Proibir e excomungar são alguns dos verbos usados na legislação sobre a escolha do Papa para tentar assegurar o segredo do escrutínio, não só aquando do Conclave mas durante toda a vida. Os cardeais eleitores são obrigados a abster-se de correspondência epistolar e de conversas mesmo telefónicas ou via rádio com pessoas não devidamente admitidas nos edifícios a eles reservados. O juramento de guardar segredo estende-se a diversos funcionários (não cardeais) que colaboram no conclave.
Lágrimas
A Sala das Lágrimas é um pequeno espaço à esquerda do altar da Capela Sistina. É para lá que vai o novo Papa depois da eleição, para vestir as tradicionais roupas brancas e vermelhas do Pontífice. A sala é das “lágrimas” por alusão às lágrimas de emoção derramadas pelos cardeais que foram eleitos Papa.
Missa
Ainda com a presença de muitas outras pessoas, a eleição do Papa é precedida pela “Missa pro eligendo pontífice” (“Missa pela eleição do pontífice”). A de ontem foi presidida pelo cardeal Angelo Sodano, o cardeal nomeado há mais tempo – que não participa no conclave por ter mais de 80 anos (ver página 06).
Nome
João (23), Bento (16) e Gregório (16) são os nomes mais vezes escolhidos pelos papas, uma decisão que é o último ato formal do conclave, correspondendo a uma tradição antiga da Igreja Católica. No início do cristianismo o eleito usava o seu nome – Lino, Clemente, Eleutério, Aniceto, entre outros -, mas a partir de 532 a tradição de mudar o nome instalou-se: o eleito chamava-se Mercúrio, denominação de uma divindade pagã, e adotou o nome de um dos apóstolos, passando a chamar-se João II.
Oração
A resposta católica a “quem escolhe o Papa?” é “o Espírito Santo”. Os cardeais são mediações humanas. Por isso, por todo o lado surgem apelos à oração para que seja escolhido o melhor (mais santo? mais sábio? mais humilde? mais audaz?) para chefiar a Igreja Católica.
Portugueses
Há dois portugueses nesta eleição: D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, que já participou no conclave anterior, e D. Manuel Monteiro de Castro, penitenciário-mor da Santa Sé, que será o décimo cardeal português num conclave desde 1903. Neste conclave, o primeiro será o 32.º cardeal a votar, enquanto o segundo ocupa o 106.º lugar na lista.
Químicos
Para dar a cor negra (ainda não eleito) ao fumo que sai da chaminé da Capela Sistina são acrescentados produtos químicos aos boletins a queimar: uma mistura de perclorato de potássio (usado em fogo de artifício), antraceno (hidrocarboneto aromático) e enxofre. O fumo branco que anuncia a eleição de um novo Papa, vai ser produzido num equipamento eletrónico através da mistura de clorato de potássio, lactose e resina.
Reforma
Reforma, principalmente da cúria romana, foi a grande nota saída das congregações cardinalícias (reuniões dos cardeais) pré-conclave. Na realidade, houve muita reserva sobre o que os cardeais conversaram e que poderá determinar o rumo da eleição pontifícia. Além da reforma da cúria romana (serviços que ajudam o Papa), em parte motivada pelo escândalo do Vatileaks (fuga de documentos papais reservados), falou-se da importância da fé e do papel da igreja no mundo atual, da situação da mulher na Igreja Católica e da administração dos bens do Vaticano.
Sistina
Capela onde se realiza o conclave. A Capela Sistina, decorada por Miguel Ângelo e discípulos, deve o seu nome a Sisto IV, Papa entre 1471 e 1484, que promoveu as obras de restauro da antiga Capela Magna a partir de 1477.
Tempo
Eleição demorada ou rápida? Antes do conclave já de disse de tudo. Que iria ser rápida. E que iria demorar muito por não haver favoritos. Fica o registo dos últimos conclaves: eleição de Pio X, em 1903: 5 dias, 7 votações; eleição de Bento XV, em 1914: 4 dias, 10 votações; Pio XI, em 1922: 4 dias, 14 votações; Pio XII, em 1939: 2 dias, 3 votações; João XXIII, em 1958: 3 dias, 11 votações: Paulo VI, em 1963: 3 dias, 6 votações; João Paulo I, em 1978: 2 dias, 4 votações; João Paulo II, em 1978, 3 dias, 8 votações; Bento XVI, em 2005:2 dias, 4 votações.
Urbi et orbi
A bênção ‘urbi et orbi’ (à cidade [de Roma] e ao mundo), desde a varanda central da Basílica de São Pedro, é o primeiro ato público previsto para o novo Papa, após o anúncio da sua eleição (“Habemus Papam”). O tempo entre o surgimento do fumo branco e o momento em que o novo Papa é visto pela primeira vez para a saudação e a bênção ronda os 50 minutos.
Votação
A votação acontece com o preenchimento de um boletim retangular, que apenas traz impressa a menção “Eligo in Summum Pontificem” (“Elejo como Sumo Pontífice”) na parte superior. Na metade inferior está o espaço para escrever o nome do eleito, pedindo-se que os cardeais disfarcem a sua caligrafia. O boletim é dobrado em dois e é levado de forma visível ao altar, onde está colocada uma urna, onde os cardeais, por ordem de criação, pronunciam o juramento: “Invoco como testemunha Cristo Senhor, o qual me há de julgar, que o meu voto é dado àquele que, segundo Deus, julgo deve ser eleito”. O juramento é feito apenas no primeiro escrutínio. O cardeal deposita o seu voto na urna, tapada pelo prato no qual o boletim tinha sido colocado.
Xis
A grande incógnita. Quem será o sucessor de Bento XVI? Um europeu? Um africano? Um asiático? Um americano? São Gregório III, da Síria, que liderou a Igreja Católica entre 731 e 741, foi o último Papa não-europeu, integrando o lote de 11 pontífices nascidos no Médio Oriente (8) e África (3), até ao século VIII.
Zózimo
Papa de origem grega. O seu pai chamava-se Abraão, o que leva alguns a afirmarem que tinha origem judaicas, como o primeiro papa. Zózimo foi pontífice em 417 e 418. Escreveu uma carta sobre a superioridade da sede apostólica contra os que apelavam ao poder civil para questões religiosas.
J.P.F., com agências
