Conflitualidade laboral, em dois patamares

Questões Sociais A sociedade portuguesa, como as outras, vive em conflitualidade permanente; mais visível nuns casos, e apenas latente nos outros. As manifestações e as greves constituem momentos fortes da conflitualidade visível, enquanto o descontentamento difuso e a revolta contida figuram entre os indícios da conflitualidade latente. Os conflitos verificam-se entre o capital e o trabalho, o Estado e a sociedade civil, a direita e a esquerda, as «classes» sociais, o norte e o sul do país, o litoral e o interior…

Limitando-nos à conflitualidade laboral, pode afirmar-se que ela consiste nas lutas entre os trabalhadores, com seus sindicatos, e as entidades patronais, com suas associações. O seu patamar mais visível tem como objecto central as lutas relativas a salários, condições de trabalho, estabilidade no emprego, erradicação do desemprego…O seu âmago consiste na luta entre o capital e o trabalho; nuns casos ganha o trabalho, noutros o capital.

Nesta perspectiva de longo prazo, deparamos com o patamar dos conflitos menos visíveis; o seu âmago consiste na luta do «tecnocapital» contra o emprego; o «tecnocapital» é o «velho» capital enriquecido com o poder da ciência, da tecnologia e da inovação. Com este reforço, ele responde às arremetidas mais fortes do trabalho, diminuindo a necessidade de trabalhadores e aumentando as taxas de desemprego.

A luta do «tecnocapital» contra o emprego aproveita e estimula o desenvolvimento tecnológico; e os seus efeitos devastadores poderão atingir níveis de gravidade quase impensáveis por ora. Nesta luta, o «tecnocapital» dispõe de três recursos poderosíssimos: o aumento da produtividade, com melhor equipamento, organização condizente e menos emprego, como já foi referido; depois, a deslocalização de estabelecimentos produtivos para países com salários mais baixos e condições de trabalho menos dignificantes; e, ainda, a venda de estabelecimentos produtivos, transferindo-se os respectivos capitais para aplicações financeiras mais ou menos especulativas.

Esta evolução já se encontra bastante generalizada, e tudo leva a admitir que se intensifique no futuro. Nela, o emprego e os trabalhadores ficam a perder; ao mesmo tempo aumentará o poder financeiro e nada garante que os direitos sociais possam manter-se nos níveis necessários. Talvez se evitasse a derrocada social, se os trabalhadores, os empresários e as demais entidades empenhadas na produção, no emprego, no bem-estar e na justiça social se aliassem no esforço de viabilização das empresas e de toda a economia, a favor do bem comum.

Esta aliança não implicaria a negação de interesses divergentes de trabalhadores, de empresários e de outras entidades, mas corresponderia à consciência de que também existem interesses comuns e ao correspondente sentido de responsabilidade.