Revisitando o Vaticano II Ao terminar a referência às considerações de B. Sesboué sobre o exercício do Magistério nos nossos dias, importa sublinhar as intenções com que as faz: um profundo amor à Igreja, um desejo genuíno de corresponder ao pedido do Papa João Paulo II, reconhecendo, com o próprio Papa, que, hoje, dada a mundialização do impacto da sua palavra, a complexidade crescente dos problemas, a tarefa diária do governo da Igreja universal é esmagadora para um homem só, por melhores que sejam a sua saúde e as suas capacidades de trabalho, por melhor que seja assessorado.
1. O que se reflectiu diz respeito, de um modo particular, à maneira de exercer o magistério. “Não se trata de pôr em causa a responsabilidade própria do papa, que preside ao serviço da unidade da fé e da caridade. Mas tudo pede, tanto o necessário equilíbrio entre o princípio da presidência, o princípio colegial e o princípio comunitário, como as legítimas expectativas da consciência contemporânea, que esse magistério dê o devido espaço ao magistério dos bispos, que estão em contacto directo com as diversas expressões do sensus fidelium.”
2. Reconhecendo que a regulação magisterial da autenticidade da fé é indispensável para a vida da Igreja, seria de todo conveniente que esse exercício se fizesse de modo menos imediato, antes mais consensual, dialogal e colegial e, porventura, até mais “atraente”. “O discurso pastoral da Igreja sabe muito bem encontrar o tom exacto sobre muitos pontos que pertencem ao anúncio do Evangelho. O mesmo não ocorre, infelizmente, quando o discurso de regulação magisterial se faz autoritário e afirma obrigações ou proibições.”
3. “Cabe ao magistério uma função ‘educativa’. Mas toda a pedagogia exige o respeito à criança. Se foi sempre um ponto pacífico que a fé é um acto livre, o discurso da Igreja deve mostrar que se dirige respeitosamente a uma liberdade que deseja esclarecer, a fim de que esta se empenhe no que é mais justo. Isto supõe que esse discurso deixe o espaço necessário para permitir que a liberdade se questione, reaja e se empenhe.”
4. Não nos podemos iludir com a facilidade de divulgação dos pronunciamentos do magistério pelos meios de comunicação social, pensando que, desse modo, a informação, sobretudo o discernimento do conteúdo ficam patentes a toda a gente. É que a comunicação social procura o sensacional, não raro sublinhando aquilo que distancia a Igreja do Mundo, em vez de proporcionar uma informação compreensível e contextualizada. O que quer dizer que o esforço de apresentar os documentos, promover o seu estudo e divulgação não podem ser descurados. Esta situação reclama também, da parte do magistério uma “mudança quanto ao tom, quanto ao vocabulário e à pedagogia dos documentos.”
Querubim Silva
