Contagem decrescente

De repente, o efeito borboleta aparece-me em todo o lado: filmes; sites e blogs; um livro de crónicas. Quero ser original e não posso; antes de mim muitos falaram, escreveram, filmaram o efeito borboleta, a teoria de Lorenz apresentada em 1972.

Não consigo ser original, mas posso falar do efeito menina e das crianças invisíveis. No site http://www.girleffect.org, há dados reveladores. Documentos tão básicos como a certidão de nascimento e o bilhete de identidade são negados a muitas meninas. E que interessa ter esses papéis? Sem eles, uma rapariga não pode provar a sua idade, logo não pode proteger-se de um casamento na infância (em muitas culturas, as meninas casam-se ainda crianças), nem abrir uma conta no banco, nem votar, nem mesmo arranjar emprego. 70% das crianças que não vão à escola são meninas, mas se a rapariga for escolarizada, conhecerá os seus direitos e mais dificilmente será explorada; saberá proteger-se a si e aos seus filhos contra as doenças; os seus filhos sobreviverão na primeira infância e irão à escola.

Quando se diz que as meninas são as futuras mulheres, ou que os jovens são os adultos de amanhã, esquece-se que HOJE elas e eles têm direitos específicos, numa “categoria” que há alguns séculos não existia, é certo, mas que hoje se protege, porque a sociedade evoluiu e já não há só crianças e adultos, há também adolescentes e jovens. Serão futuros adultos, futuras mulheres, pais e mães no futuro, mas HOJE vivem no presente.

É preciso saber quantas meninas nascem para se poder agir. É preciso formar advogados para defenderem os direitos das raparigas. É preciso dar às meninas uma educação de qualidade, ambientes seguros e apoio que lhes permitam ir à escola e frequentá-la também durante a adolescência. É preciso respeitar os direitos das raparigas e apoiá-las para que possam fazer as suas próprias escolhas.

Estas meninas fazem parte de uma lista incómoda de crianças invisíveis, meninas e meninos, que nos passam despercebidas, e que vivem em situações desumanas. Se virmos com atenção, as notícias não fazem manchetes destas situações incómodas, mas cada vez mais se vai falando destas realidades.

Até ao dia 17 de Outubro, dia internacional para a erradicação da pobreza, viviam num mundo mais ou menos agradável. Nessa data, visitaram uma exposição. Estranharam que haja tantas pessoas que não trabalham. Perceberam que o seu estado de subnutrição, o local onde vivem e os governos que dominam os seus países não lho permitem. Só então compreenderam que não devem deitar fora a comida que não lhes agrada, e que há muitos colegas seus que comem de graça na cantina, porque os pais estão desempregados.

Nesse dia, descobriram que há oito objectivos do desenvolvimento do milénio: erradicar a pobreza e a fome; alcançar o ensino primário universal; promover a igualdade de género e dar poder às mulheres; reduzir a mortalidade infantil; reduzir a mortalidade materna; combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves; garantir a sustentabilidade ambiental; fortalecer uma parceria global para o desenvolvimento.

Hoje, fazem parte dos 93 707 portugueses que se levantaram contra a pobreza, entre 17 e 19 de Outubro. Fazem parte das 116.993.629 pessoas que no mundo se levantaram contra a pobreza. Perceberam que podem ser uma borboleta e produzir efeito.

Começou a contagem para o 60.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de Dezembro de 1948/2008.

Efeito borboleta – O bater das asas de uma borboleta em Pequim pode provocar uma tempestade em Washington (ou impedir a sua formação).