Questões Sociais A pulsão capitalista universal, abordada no artigo anterior, reflecte-se nas políticas sociais e, particularmente, nas destinadas a «combater a pobreza e a exclusão». Tais políticas são notoriamente de cúpula, «desintegradoras» e «excludentes»: de cúpula, porque partem do poder central para a base; «desintegradoras», porque consideram apenas alguns aspectos de cada pessoa (desemprego, doença, etc.); «excludentes», porque deixam de fora as situações não conhecidas, ou menosprezadas, pelo poder político. Nunca é demais lembrar que vêm sendo sistematicamente excluídas – do conhecimento e da acção política – situações tão graves, como as de: Crianças maltratadas, sem acompanhamento dos serviços oficiais competentes; elevado número de pessoas com deficiência; «grandes dependentes» (por motivo de deficiência profunda, doença grave e prolongada; acidente de trabalho, rodoviário, doméstico…, idade muito avançada…); vítimas de violência ou de desaparecimento; insuficiência extrema de rendimentos; fome habitual; «sem abrigo» ou situações semelhantes…; e famílias atingidas por estes ou por outros problemas.
Assim, as políticas sociais combatem efectivamente contra muitos pobres e excluídos, ignorando-os e mantendo-os nas situações em que se encontram. Neste combate participam, em geral, todas as forças políticas e sociais: elas não assumem aquelas situações; e, quando assumem uma ou outra, aplicam automaticamente a orientação de cúpula, «desintegradora» e «excludente». Pior ainda: obce-cadas pela pulsão capitalista, baseiam sua intervenção na capa-cidade financeira de «resposta», em vez de a basearem também nas pessoas que vivem os problemas, na entreajuda informal e na acção social de proximidade; posicionam-se, em simultâneo, contra alguns pobres e excluídos, e contra quem os apoia.
Tal posicionamento traduz-se em verdadeiros esgares de sobranceria e de cinismo, consolidados na petulância do pensamento dominante: esse pensamento considera a acção de proximidade como assistencial, inferior à estrutural, mesmo que esta seja meramente palavrosa; e, para cúmulo, ainda transfere, para a acção assistencial, a responsabilidade pela persistência dos problemas. Contesta-a, humilha-a, como cúmplice do «sistema de injustiça» e refreadora do «potencial revolucionário». Chegado aqui, o pensamento dominante não se limita à sobranceria e ao cinismo; torna-se claramente desumano e até exterminador (nº. 31, alínea b) da encíclica de Bento XVI, «Deus Caritas Est»). Reproduz o maniqueísmo ancestral, ao não reconhecer que a acção assistencial e estrutural se completam e interligam.
