«Contra a pobreza»?

Questões Sociais Ocorreu, a 17 de Outubro, o dia mundial de luta contra a pobreza. No âmbito da União Europeia, foi chamada a atenção para as elevadas taxas de pobreza, que oscilam entre os 10 por cento da Holanda e da República Checa e os 25 da Roménia; 79 milhões de pessoas são «pobres». Nos últimos dez anos, a situação só melhorou em Portugal, na Irlanda, na Holanda e em Malta; a taxa, em Portugal, passou de 21 para 18 por cento. É de notar que estes dados não reflectem os efeitos da crise actual.

A orientação adoptada há cerca de dez anos, na «estratégia de Lisboa», não produziu os efeitos esperados; por isso, a Comissão Europeia está a preparar uma nova estratégia, admitindo que a luta contra a pobreza se baseie em três grandes pilares: garantia de um rendimento mínimo; acesso ao emprego; e acesso a serviços sociais de qualidade. Infelizmente estas orientações, tal como as do passado, continuam a menosprezar a base fundamental do conhecimento da pobreza e da luta contra ela: tudo se passa, em tais orientações, como se existissem, de um lado, os pobres e, do outro, o Estado e o mercado responsáveis pela solução dos problemas. O reconhecimento, o estímulo e a qualificação da entreajuda e do voluntariado de proximidade são ignorados; na melhor das hipóteses, figuram em «projectos de luta contra a pobreza», que abrangem uma parte ínfima dos pobres, e só durante algum tempo. As entidades políticas e científicas responsáveis permitem-se até apresentar como experiências-piloto, ou inovadoras, algumas práticas seculares da acção local, apresentando-as de outro modo.

Há três realidades particularmente chocantes na luta oficial contra a pobreza: não se sabe quais são os pobres; abandonam-se os que ficam fora das medidas políticas; e esbanjam-se recursos financeiros vultosos com os que têm a sorte de ser contemplados, sem se lhes assegurar a saída da pobreza. Tudo leva a admitir que estas tendências se mantenham no futuro; nesse sentido actuam as forças políticas, científicas e mediáticas dominantes.

Se queremos erradicar a pobreza, temos que nos mobilizar a nós próprios na acção local directa, e procurando influenciar os diferentes centros de decisão. Não podemos esperar que as forças dominantes se comprometam na erradicação da pobreza; e seríamos seus cúmplices se transferíssemos para elas as nossas responsabilidades. As linhas de orientação recomendáveis são, por certo: agir, propor, influenciar e persistir, mesmo teimosamente, a partir do nível local, sem nos limitarmos a ele.