DOMINGOS CERQUEIRA
Há precisamente cinco anos, escrevi algumas palavras acerca do Convento das Carmelitas e da na altura falada instalação do Tribunal Tributário naquele edifício. Pelas notícias que ultimamente têm vindo nos jornais, este tribunal ou já saiu ou estará para sair do Convento. E a Câmara de Aveiro, ao que se diz, ou ao que diz, irá ali instalar a Casa da Cidadania, ou, por palavras mais simples, irão ser ali instaladas as associações de Aveiro. Acho que as associações aveirenses merecem todo o respeito, e todos os dirigentes destas e de todas as outras instituições do concelho de Aveiro, que exercem as suas funções em benefício de Aveiro, e que o fazem à sua custa, à custa dos seus bolsos, e à custa do tempo que tiram ao seu descanso e ao convívio das suas famílias, merecem todo o meu respeito e admiração. E quantas das vezes sem verem o seu trabalho reconhecido pelas respectivas autarquias. Acho, portanto, que a Câmara tem o dever de instalar estas associações com toda a dignidade.
Mas também acho que àquele edifício, que para os aveirenses nunca deixará de ser o Convento das Carmelitas, deve ser dado um destino mais condizente com o seu nome, com a sua história, com os relevantíssimos serviços que as ordens dos e das Carmelitas há tantos anos vêm prestando a Aveiro, com o respeito que estas ordens religiosas e toda a Igreja Católica aveirense merecem.
Além do mais, este edifício que foi “roubado” à Igreja em épocas bem negras da história de Portugal e que mais tarde foi cortado ao meio para a Câmara aveirense de então para fazer a atual Praça Marquês de Pombal, tem servido para ali albergar os mais variados serviços públicos, qual deles o mais estranho às funções do seu nascimento e ao nome por que continua a ser conhecido pelos aveirenses.
Aqui há meia dúzia de anos, talvez por vergonha ou por qualquer rebate de consciência, foram efetuadas obras de restauro na Igreja do Convento, a nossa (de Aveiro) Igreja das Carmelitas, hoje tão visitada e tão admirada pelos turistas e por nós aveirenses, como uma das pouquíssimas jóias que temos no nosso concelho. Já agora, ultimamente tenho visto a porta desta Igreja fechada a horas de expediente, quem sabe se por causa da crise!
Pois passados que foram cinco anos, volto ao assunto. E faço-o devido a uma notícia do Correio do Vouga do dia 6 de maio último, com o seguinte título: “Diocese e Museu de Aveiro assinam protocolo para mostrar arte sacra”, o que irá permitir que em princípio de 2013 sejam expostas peças, pertencentes na sua maioria às paróquias da Diocese de Aveiro. Calculo que poderão ser milhares as peças de arte sacra, que neste momento se encontram espalhadas pelas arrecadações das igrejas paroquiais e, atrevo-me a dizer, em muitos casos sem as menores condições de preservação: esculturas de santos – de madeira, de barro ou em pedra -, paramentos valiosos há muito em desuso, alfaias litúrgicas, algumas de elevado valor histórico e não só, porcelanas das mais variadas origens, quantas delas com origem em fábricas que apenas já só fazem parte da história riquíssima da escultura de barro aveirense. Milhares de peças que os aveirenses têm todo o direito de admirar. Milhares de peças que todos nós, com ligações à Igreja, ou apenas pela nossa condição de aveirenses, temos o direito de exigir que sejam preservadas e expostas, não só para benefício dos estudiosos, mas para prazer dos olhos dos simples curiosos e de todos os cidadãos de uma maneira geral.
Conjugando as duas notícias atrás referidas – a possível próxima vagatura do Convento das Carmelitas e o protocolo assinado entre o Museu de Aveiro e a Diocese -, mais uma vez prespassou pela minha cabeça, uma utilidade digna a dar a este edifício:
INSTALAR NO CONVENTO DAS CARMELITAS O MUSEU DE ARTE SACRA DE AVEIRO!
Já basta de assistir ao apodrecimento de tantas obras de arte ajuntadas em tantas arrecadações sem o mínimo de condições. Já basta de vermos a cidade de Aveiro transformada num autêntico museu de ferro velho ferrugento a céu aberto. Já basta de assistirmos à degradação dolorosa de tantos edifícios que fazem parte da história de Aveiro, como, apenas como exemplo, o edifício da antiga estação dos caminhos-de-ferro. Já basta de assistirmos a certas manifestações artísticas de valia mais do que duvidosa. Já basta de assistirmos a certas manifestações verbais de certos responsáveis que a maioria de nós não consegue entender, ou se entendemos apenas ficamos admirados pela desfaçatez com que são ditas!
A propósito de muita coisa que se passa em Aveiro, vou ouvindo dizer que já basta. E porque também entendo que já basta, deixo este meu contributo para que ao Convento das Carmelitas seja dado um destino digno do seu nascimento e das suas tradições.
Se em Aveiro existem nem sei quantos museus municipais, como o Museu da Cidade – ex-Museu da República – e o Museu de Arte Nova, isso só foi possível porque a Câmara anterior comprou e restaurou dois importantes edifícios da cidade. Seria altura da atual Câmara deixar a sua assinatura na criação de um importante museu, restituindo à Igreja Católica Diocesana o Convento das Carmelitas para ali ser instalado o Museu de Arte Sacra de Aveiro. Espero sinceramente que esta ideia não desagrade à Diocese de Aveiro. E se assim for, desejo que desenvolva as ações necessárias para a sua concretização, por que não em nova parceria com o Museu de Aveiro?
E a Casa da Cidadania? É mais uma vergonha para Aveiro o abandono do antigo hospital de doentes mentais, ali mesmo à entrada de S. Bernardo. Parece-me que seria o local ideal para instalar, definitivamente, uma verdadeira Casa das Associações Aveirenses.
