Conversar para…

… ouvir ou ser ouvido

Quando perguntamos Como está, ou A sua saúde, ou Passou bem, normalmente o nosso interlocutor responde desfiando um rol de problemas. A crise, as doenças, os jovens de agora, os computadores e a Internet, os telemóveis, são pretexto para as queixas habituais que nos caracterizam. Quando a nossa pergunta espera ouvir uma resposta, lá ficamos algum tempo a escutar o que o outro tem para nos dizer. Se passou bem e como está a saúde.

O que acontece, porém, é que, em grande parte das vezes, perguntamos para termos uma oportunidade para falarmos de nós. É ou não verdade que não nos ficamos pelo ouvir e aproveitamos uma pausa em que o outro pára para respirar, para lhe dizermos Pois é, eu também tenho esse problema, mas o meu é mais grave, ou então Já sabe de fulano e sicrano que também teve essa doença.

Compreendo que muitas vezes sejamos nós quem mais precisa de falar e, por isso, ao encontrarmos um ouvido atento que, inocentemente, nos respondeu à pergunta lançada como isco, desinteressamo-nos da resposta, para expormos os nossos problemas. Afinal, não queremos ouvir os outros, queremos é que nos oiçam a nós.

(Será fácil testar esta teoria: observem-se as conversas num consultório, numa repartição pública; preste-se atenção aos diálogos de circunstância que temos durante o dia. Quando alguém lhe perguntar Como está ou Passou bem, responda laconicamente e retribua a pergunta. Talvez tenha uma surpresa e o outro lhe faça o resumo da sua vida nos últimos sete anos.)

… fazer pensar, fazer crescer

Ontem, conversaste com um grupo de rapazes e raparigas cujo passatempo preferido era achincalhar um colega. Entre os jogos de futebol e as conversas de amigos, lá lhes saía frequentemente um palavrão ou um cognome nada elogioso com que presenteavam o outro.

Quando os confrontaste com o “bullying”, souberam de imediato definir o conceito. Até te admiraste por identificarem tão rapidamente outras situações similares, em que alguém escolhe um alvo mais fraco para atingir de forma continuada – violência doméstica, maus-tratos infantis. Espantaste-te por nenhum referir a notícia que há poucos dias chocou a opinião pública: uma rapariga foi agredida repetidas vezes por colegas da sua escola. Serenaste-os quando perguntaram se o outro era vítima de maus-tratos e sorriste com o alívio daqueles cuja preocupação se estava a adensar. Disseste que o outro tinha – “graças a Deus”, invocaste o nome dEle – um óptimo ambiente familiar.

Tentaste que percebessem que quem é alvo de chacota se sente triste. Não chegaste a falar de humilhação, mas foste muito directa quando usaste a palavra cobardia. Contudo, nenhum se ofendeu, e todos assumiram que estavam a ser cobardes. Confessaste o teu espanto e sobretudo tristeza por aquilo ter acontecido e descobrires que não era recente. Acontecia desde a infância, há cerca de quatro anos, talvez. As crianças conseguem ser cruéis, pensaste. Emocionaste-te quando alguns elementos do grupo confessaram que se estavam a sentir mal, com um peso na consciência, e que iam pedir desculpa ao outro.

Tiveste sorte porque este grupo conversou contigo, ouviu e reflectiu. Eles pareceram-te sinceros. Agora, não podes baixar a vigilância e tens de estar atenta ao mínimo sinal de “bullying”. Mas… és capaz de ter conseguido fazer pensar. Fazer crescer.

… recordar e festejar

Em Fevereiro, há 200 anos, a 12, nasceu Charles Darwin, o famoso naturalista, que desenvolveu a Teoria da Evolução e Selecção Natural. Há 100 anos, Marconi recebeu o Prémio Nobel da Física por ter inventado as telecomunicações sem fios. Há 100 anos, a 15, nasceu Miep Gies, que ajudou Anne Frank e a família, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi ela que descobriu os manuscritos do Diário de Anne Frank, que é uma lição de vida para todos quantos o lêem. Há 100 anos, a 12, nasceu Carmen Miranda, uma das maiores embaixadoras da língua portuguesa. Há 100 anos, a 11, nasceu Jesuína Pina de Almeida, a minha avó materna, com quem festejámos o aniversário no dia 14. Parabéns, querida avó!