“O país não quis ouvir!” – disse e repetiu o comentador político. O povo não quis ouvir: em 2001, 2004, 2009… Não quis ouvir dizer que o país estava sem meios, ignorou o vocabulário do défice. Preferiu continuar a viver na ilusão da facilidade, da riqueza sem suporte. E gastou, habituou-se a gastar o que não produzia, o que não ganhava.
Espanta ler uma notícia como esta: “Os portugueses tencionam gastar mais do que os alemães, no Natal”. Nada mudou na mentalidade da maioria. A recomendação do Papa no sentido de fazermos uma conversão de mentalidade em ordem a uma vida mais sóbria, por motivo da crise, parece não ter obtido eco.
Angustia ler que mais de seiscentas mil famílias deixaram de poder pagar os seus compromissos à banca. Quantos milhares tiveram já de entregar as casas, que são agora vendidas ao desbarato, em favor de “gorilas” oportunistas que têm capital de reserva. Mas seria oportuno saber e ver claro que casas se compraram, que mobílias e decorações se utilizaram, que desperdício de espaços e de materiais… Se causa arrepios o “comboio” cinzento ou amarelo dos bairros sociais, como se de colmeias alinhadas se tratasse, não causa menor espanto a ostentação de tanto apartamento, de tanta moradia, agora entregues aos credores. Habitação condigna não tem que ver com tanta pompa e tanto desperdício!
Não percebo de orçamento. Estou de acordo que não se pode atirar poeira para os olhos com umas “migalhas de pseudo generosos” que continuam a ocultar o vasto manancial o qual lhes alimenta uma vida opulenta. Mas também não entendo tanta gritaria de quem não quis ouvir, de quem criou hábitos de consumismo, de quem gasta o que não ganha e até de quem não faz grande esforço para trabalhar, vivendo como parasita social…
A multidão dos verdadeiros injustiçados sofre silenciosamente. Sabe dos seus direitos, mas também sabe dos seus deveres, reclama com razão, mas também se agarra afincadamente em busca de soluções complementares.
A hora é de solidariedade! Mas também de lucidez e coragem. O Governo da Nação tem de ser transparente e corajoso, para eliminar privilégios e benesses que tenha o povo de pagar. E o povo tem de ser sensato, considerando o nível de vida que nos é possível, indignando-se com fundamento e coerência, buscando os meios que lhe são possíveis para participar na reconquista de uma esperança consolidada.
Os cristãos, que o sejam em verdade, submissos à Sabedoria de Deus, têm obrigação de viver e irradiar esta coragem e lucidez, ancorados na fé. E, desse modo, tornarem-se testemunho “contagioso”. Com efeito “a «fé, que actua» torna-se um novo critério de entendimento e de acção, que muda toda a vida do homem” – como recorda Bento XVI na carta apostólica A Porta da Fé – n.º 6. A vergonha da fé que se professa, o pecado de omissão podem ser bem mais graves do que muitas acções más!
