Este Verão tem sido pródigo em notícias de todo o tipo. Quase sempre com as desgraças e os pessimismos a imperar. Apesar de inumeráveis coisas boas que aconteceram, saltam para os noticiários e as primeiras páginas as tragédias – acidentes, incêndios, criminalidade… O costume!
Mas houve factos e decisões tão nobres que não poderão ficar na fugaz imagem, na rudimentar reportagem. Uma delas certamente tocou o íntimo de muitos dos nossos leitores atentos, o coração de muitos portugueses.
Corajosos! É o mínimo que se pode dizer daquele grupo de médicos que, em vez de se gozarem de carros novos de serviço que lhes eram atribuídos, deles abdicaram em favor de um sofisticado equipamento que veio melhorar significativamente um sector da sua ocupação profissional, com evidentes benefícios para a saúde pública, para os portugueses, que procuram, tantas vezes angustiados, os serviços da ciência médica, para curar ou amenizar as suas debilidades de saúde.
Não queremos dizer que o trabalho meritório, a dedicação profissional, a exigência de aplicação científica não possam acarretar regalias. Todavia, é necessário ponderar que as regalias de alguns não redundem em falta do essencial para muitos. E é bem claro que, em muitos sectores da vida portuguesa, assim acontece.
Mais uma razão para louvar o bom senso e a ponderada razão de quem teve este gesto de clara solidariedade social, a sensibilidade ao bem do próximo, a coragem de testemunhar critérios diferentes num mundo varrido pelo egoísmo.
Vivemos momentos de escassez de recursos que revertam para benefício público: na saúde, na educação, nas infra-estruturas de apoio social…, desde o pessoal aos meios materiais. Mas não há modo de reduzir as infindas listas de assessores, que custam fabulosas quantias ao erário público, que é como quem diz a todos nós, expressão quase ridícula de modernas formas de nepotismo!
São de louvar estas iniciativas de filantropia ou caridade cristã. E que seria de nós, se elas não existissem! Mas será que o Estado não atina com uma programação e distribuição de recursos que garanta o essencial, que promova e estimule o amor ao trabalho e a produção de riqueza, que consagre o incentivo a quem se dá, de alma e coração, ao serviço do bem comum?…
Precisamos que, a nível de sistema governativo, apareçam também os heróis, que, desassombradamente, espetem semelhantes “lanças em África”, quem sabe se renunciando também a frotas de carros de alta gama, ou trabalhando mais por si e não pelos acessores…
