Crepúsculo da Europa?

A classe política foi surpreendida pelo “não” do povo francês e do povo holandês ao referendo ao Tratado Constitucional Europeu. Entrou-se rapidamente num clima de quem está já no crepúsculo da Europa, antes mesmo que brilhasse em pleno o sol do seu projecto. As reacções foram, no geral, de quem perdeu não uma batalha mas a guerra.

1 – É claro que, mais tarde ou mais cedo, os cidadãos acabam por aperceber-se de que os seus elegidos, abusando da delegação de competências, conduzem os sonhos das nações por caminhos ínvios, que não colocam o bem comum, a integração das identidades numa unidade diversificada, como os objectivos prioritários… Antes se tornam medianeiros de grupos de interesses, antagónicos entre si, todos em busca de hegemonias incompatíveis com uma cidadania de pleno direito, consciente, para ser participativa.

2 – Em vez das discussões sobre o sentido do projecto original dos sonhadores da Europa, da descoberta da riqueza da alma das nações, da integração cultural em mosaico harmonioso…, os nossos políticos varreram da Comunidade Europeia as referências históricas integrais, as componentes religiosas das matrizes culturais, a consideração de todos os contributos da diversidade de forças e estruturas sociais, as instituições que alicerçam uma sociedade equilibrada, nomeadamente a Família.

3 – Fundamentaram a construção europeia essencialmente na negociação: sempre que algum representante nacional participa em convénios europeus, vai negociar; para chegar triunfante com o resultado, que lhe dará dividendos políticos, ou desculpando-se do insucesso, para que o desgaste não seja tão pernicioso. Traçaram-se áreas transversais de construção da Europa prisioneiras de objectivos mercantilistas – mesmo quando se trata de Educação, de Espaço Europeu do Ensino Superior.

4 – Desprezou-se o Homem. Melhor dito: fazendo tábua rasa de um património multisecular de história, cultura, vida social, religião, que vai muito para além do “marco” da Revolução Francesa, fazendo dos seus preconceitos jacobinos os ideais de construção da unidade europeia, a “nomenclatura” política reduziu a Pessoa a uma ferramenta utilitarista, que se molda ao sabor dos interesses estabelecidos.

5 – Face a um equilíbrio mundial cada vez mais frágil, é tempo de retomarmos todos o gosto de descobrirmos de onde vimos, de assumirmos todos os trajectos percorridos, numa diversidade enriquecedora, de nos empenharmos todos em refazermos e actualizarmos as nossas identidades culturais, de acolhermos o desafio da necessidade de uma nova alma europeia, não para confrontarmos os nossos “adversários”, do Oriente ou do outro lado do mar, mas para oferecermos o nosso testemunho de coerência, que edifica, o nosso gosto de partilha, que fortalece.