Criança, pequenino

Poço de Jacob – 105 “Quem for como as crianças…”, “quem receber o reino como as crianças…”, “deixai vir a mim as criancinhas…”, “quem for como elas…”, “quem escandalizar os pequeninos…”, “revelastes aos pequeninos…” São pedaços de frases dos Evangelhos que Jesus nos apresenta. Não sou exegeta, embora estude exegese e leia muito, mas atrevo-me a dizer que criança e pequenino não são a mesma coisa na Bíblia. A criança sempre a identifiquei nos textos e contextos bíblicos com o bebé de colo totalmente dependente da sua mãe. Não anda, não fala, abandonado nos seus braços, dela se alimenta e nela descansa. O pequenino é aquele que já exerce as faculdades do falar, do locomover-se. Nele já se encontra malícia, birrices, ciúmes, chantagem…. No fundo, somos nós já adultos no dia-a-dia, desconfiados até com Deus e resistentes no cumprimento da Sua Vontade. Deus quer-nos crianças no abandono e pequeninos em relação aos mistérios do Reino, ou seja, adultos na Fé.

No entanto, eu queria ir por um outro caminho de reflexão. Conheço uma pessoa que muito amo. Tem 74 anos e sempre vivi com ela. Conta-nos muitas vezes que, sendo pequena, muito pobre, num dia de visita pascal, ao ver o pároco aproximar-se de seu bairro, fez-lhe sinal com a mão para lhe dizer que estava à espera. Ao chegar junto dela, o padre olhou-a com antipatia e a pequenina sentiu-se afundar no olhar severo daquele que deveria ser para ela a imagem viva do Bom Pastor. Claro que o padre estaria cansado, pois a visita pascal exige muito e era ao fim do dia. Não podemos, nunca, julgar uma pessoa por uma reação pontual, mas na sua globalidade. Para tal, deveríamos conviver diariamente com ela. Mas também é verdade que o encontro com uma pessoa, sobretudo quando se é criança, pode marcar uma vida para o bem e para o mal. Os traumas existem. Na hora que nos toca, custa-nos desculpar e entender que tenham sido indelicados connosco. Muitas vezes pergunto-me quantos terei eu marcado assim, negativamente, por não ter sabido viver o momento do encontro e ter agido de modo impulsivo levado pela minha dor, stress, cansaço ou desilusão… Que Deus nos perdoe e os anjos remendem o mal praticado, consertem os corações feridos, e nos ajudem a estar mais atentos.

Por isso, hoje, vou aprendendo, quando se abeira de mim uma criança ou um pequenino, como vimos antes o seu sentido supostamente bíblico, que o momento não se pode perder. Se no cartório você tiver uma boa reserva de livros, rebuçados e bonecos de peluche, pode fazer feliz uma criança que vier com seus pais e, mais do que lhes falar de Deus, mostrou que o Bom Pastor existe. E como dizia o nosso falecido e saudoso P.e Leonardo, e perdoem-me a comparação, “uma mosca apanha-se melhor com uma colher de mel do que com uma de vinagre”. Estamos cansados de padres e agentes de pastoral mal-encarados e mal-humorados… de sermos atendidos nos balcões e nos lugares de atendimento com a azedume de uma vida que corre mal e sem sorrisos e palavras delicadas de acolhimento. Vejo em cada dia que passa a alegria imensa que nos invade quando, passando do outro lado da rua, com seus pais, a criança grita bem alto: “Olá, senhor padre”, sem medo do olhar indiferente ou assustador que nada tem a ver com o “Deixai vir a mim” que Jesus pronunciava em palavras e atos.

Se a minha doce mãe recorda com mágoa a atitude do padre e isso a acompanhou durante toda a sua vida até hoje é porque, na sua imensa pobreza material, ela esperava naquele dia um presente, talvez a doçura de um sorriso, uma mão pousada sobre seus cabelos de menina pobre e pequenina, uma palavra amiga acompanhada de uma amêndoa roubada na casa anterior dos ricos para adoçar a boca e o dia de Páscoa daqueles que ainda viviam em Quaresma. Eu e nós temos de aprender o valor dos pequenos gestos, pois os momentos existem. E eles podem marcar o ritmo do nosso tempo.

Vitor Espadilha