Crise: Desgraça ou oportunidade?

Os tempos de crise são tempos de purificação: caem as coisas velhas, despontam as novas, seguram-se as permanentes. A história não avança sem os tempos de “crivo”; a Humanidade não cresce sem estes sobressaltos.

Os tempos de crise são prolongados, desde o seu início ténue até ao seu termo quase imperceptível. Certo é que, pelo meio, a crista da onda é aguda e dolorosa, preocupa e faz sofrer. Estamos, provavelmente, numa dessas cristas, sob um forte combate entre a cultura da vida e a cultura da morte. No Mundo; e em Portugal, sem dúvida.

A Humanidade cresceu em consciência do valor da vida humana. O progresso da ciência, a caucionar as aquisições civilizacionais deste apreço, percorreu caminhos difíceis, mas clarificadores. Vinha a adivinhar-se que o estertor da ideologia haveria de querer manipular a ciência e a consciência, para retomar, paradoxalmente, o culto da morte.

Mas a sociedade não dorme. E, se uma batalha se poderá perder, já ninguém vencerá os gérmenes de um mundo novo, que cultiva e ama a vida, que se maravilha diante do fascínio que a ciência da vida intra-uterina apresenta.

A grande batalha já se venceu. Saíram à rua movimentos e associações. Procurou-se a discussão, o confronto com as aquisições da ciência; ergueu-se o estandarte dos valores profundos do humanismo. Publicaram-se estudos sem resposta; leram-se estatísticas sem sofismas… Perderam todos os que quiseram transformar a vida em ideologia ou partidarismo, porque ela é uma questão de civilização!

Muitos já perceberam que é tão bárbaro executar um ditador, como ceifar vidas inocentes indefesas. Não é uma questão de religião. É uma questão de progresso ou retrocesso em humanidade. A religião – ou a fé – tão somente ilumina, para se descobrir a totalidade da nobreza da vida, reconhecendo a sua origem última e o seu rumo final.

A honestidade científica não é uma questão confessional. E vai dando razões àqueles que puseram a seu horizonte para além dos confins deste universo do espaço e do tempo, para perceberem a vida como um dom indisponível, a promover e cuidar com desvelo sem medida, desde o momento da fecundação.

Os caudais surgidos de informação isenta, o entusiasmo de tanta gente pela vida, a recolocação do debate no núcleo da questão, desfazendo preconceitos imobilistas, são os frutos novos do mundo que desponta, reafirmando a verdade permanente de Deus, fonte de vida e que a dá em abundância. A própria serenidade de quem informa com respeito é uma forma nova de anunciar a vida. Trava-se uma batalha sem guerra; faz-se uma catarse pelo pensamento… É uma grande vitória da civilização!