A crise actual surgiu, entre nós, num ambiente de conflio muito acentuado. O Governo e o seu partido revelam enorme dificuldade no diálogo e na concertação permanentes. Os partidos da Oposição aproveitam a oportunidade para dificultar a vida ao Governo, apesar de não formularem propostas consistentes de superação da crise. As forças sociais manifestam-se contestariamente, na rua e nas lutas quotidianas, considerando como propostas válidas as simples formulações de grandes princípios, sem conexão com as limitações económicas. Os meios de comunicação social fomentam a conflitualidade, mediante a selecção e deturpação de factos noticiados e comentados. A sociedade civil, incluindo largos sectores cristãos, parece vencida pelo derrotismo e pela revolta, acreditando piamente nas notícias e comentários mais demolidores e mais lesivos da honra das pessoas visadas.
A conflitualidade existia antes da crise, contribuíu para ela e está a agravá-la, retardando a sua superação. As opiniões públicas dominantes responsabilizam a classe política, sobretudo o Governo, pela si-tuação; responsabilizam este Governo como, no passado, responsabilizaram outros e hão-de responsabilizar os vindouros. Contudo, apesar de todas as limitações, essa classe é praticamente a única força empenhada no diálogo-debate permanente e na procura dos entendimentos possíveis; isso não elimina a sua responsbilidade, mas retira autoridade a muita gente que lhes «atira pedras» sistematicamente. Em contrapartida, a concertação social – sindical, patronal e governamental – funciona sem persistência e não se descentraliza. Para cúmulo, da parte da sociedade civil, não surgem movimentos sociais apartidá-rios comprometidos na procura de pontes de entendimento entre as várias correntes políticas e sociais. Deste modo, a sociedade civil dá a impressão de que alienou aos políticos e aos parceiros sociais toda a respon-sabilidade pelo bem comum, esquecendo que a fonte do poder é o povo, e que este nunca deveria prescindir do seu poder de iniciativa, designadamente em termos de proposta e de influência.
À luz do Evangelho (Mateus 5, 44), dir-se-á que se impõe amar os adversários – em termos laicos, desenvolver a fraternidade democrática – sob pena de fazermos perigar a democracia e o nosso futuro. Dado que a democracia é do povo, nada obstaria – muito pelo contrário – a que tal fraternidade nascesse dele, se integrasse na sua cultura e se projectasse na esfera política e social. E bom seria que, no povo, os cristãos leigos dinamizassem um «grande movimento» com essa mesma orientação (cf. o nº. 3 da encíclica «Centesimus Annus», de João Paulo II).
