Crise na educação?

Reflexão motivada pelo fórum “Pensar a Escola. Preparar o futuro” (Lisboa, 22 a 24 de Janeiro) «A crise de educação não é uma crise da educação; não há crise da educação; nunca houve crise da educação; as crises da educação não são crises da educação; são crises da vida; (…) quando uma sociedade não pode educar, é porque essa sociedade não pode educar-se; é porque ela tem vergonha, é porque ela tem medo de se educar a si mesma; para toda a humanidade, educar, na verdade, é educar-se; uma sociedade que não se educa é uma sociedade que não se ama, que não se estima; e tal é, precisamente, o caso da sociedade moderna.»

Charles Péguy

Duas notas podem colher-se das palavras do grande escritor francês, Charles Péguy, morto em combate, durante a I Grande Guerra: ao falar-se dos problemas que assolam a educação deve estar-se consciente de que a sua resolução deverá envolver os paradigmas em que se estrutura a vida das sociedades; que falar de educação concerne a um território que é próprio do amor – aquele a que Sebastião da Gama considerava ser o terreno da criação de homens.

E é da distracção em relação a estas notas que redundam muitos dos erros com que vêm sendo conduzidas sucessivas reformas educativas: não haverá verdadeiras reformas da educação sem envolver a sociedade e, de forma muito particular, os primeiros responsáveis pela educação que são os pais, as famílias. Um sistema em que a educação é decidida, forjada por um totipotente Estado redunda num totalitarismo incapaz de educar, mas apenas de formatar. E educar não é, de modo algum, formatar. Na sua raiz etimológica, seja grega (paideia – a condução da criança – de que resulta «pedagogia»), seja latina (educere – conduzir a partir de dentro, fazer sair de dentro…»), educar fala de emergência de algo que está presente e é preciso fazer despertar. O educador é aquele que faz nascer do interior do educando a sua própria identidade.

Uma tal definição obriga a situar a educação muito para além da mera instrução e da comunicação de saberes, supostos, porém. Educar terá de ser, antes, um caminho que se faz na tensão entre o que já está presente e o que ainda se está a conquistar. Nem acomodado ao que já possui cada educando, nem dominado pelo saber não detido por aquele que cresce. É a tensão que define educar. Neste sentido, é a pessoa toda que se encontra envolvida no processo educativo, seja na sua condição de memória e projecto, seja na sua dimensão de interioridade e relação. Percebemos, assim, que a tarefa da educação não pode bastar-se com a comunicação de saberes exteriores ou dominada pela perspectiva da técnica, que pretende o domínio sobre a natureza. Educar é, acima de tudo, a tarefa de construir-se a si mesmo, aquilo a que os gregos chamavam a procura da «vida feliz», que visa o bem.

Ora, na nossa perspectiva, é este horizonte que parece estar diluído quando se discute a educação. Parece estar-se centrado no problema da técnica, depreciando a emergência do humano, para cujo contributo é decisivo o envolvimento de todas as instâncias que convergem para a pessoa: família, pares, comunidades, sociedade em geral. Um modelo em que a escola se fecha sobre si redunda num fracasso e representa um encerramento autista, de que sai prejudicado o indivíduo, primeiramente, e, por decorrência, a sociedade.

É este o percurso que importa traçar, envolvendo a vida de todos na vida da educação porque é isto que as supostas crises de educação denunciam. Um Estado que se fecha em si e se considera detentor solitário da solução para este âmbito decisivo da vida em comunidade trai o dever da educação, ao atribuir-se a capacidade, que não tem (e, em Portugal, não lhe está atribuída pelo Constituição), de definir os fins específicos da educação para cada pessoa, competência subsidiária das famílias. Poderíamos dizer que não é o Estado que educa, mas as famílias que, por não se sentirem competentes em todas as matérias, solicitam o auxílio do Estado. Mas é dos pais tal direito e dever. Porque, de facto, educar é assunto de amor, de emergência da humanidade que está presente em cada um de nós.