Crise? Não para todos

Escrevo esta pequena reflexão em tempos de recessão económica. A presente crise já é considerada por muitos como uma das mais graves de que há memória, pois os seus efeitos estão a ser terríveis e não se sabe até quando irão durar.

Os analistas são unânimes ao considerarem que o descalabro financeiro atual teve origem nas estruturas económicas mundiais, que o geraram através da especulação e que os governos neoliberais se apressaram a injetar muitos milhares de milhões de dólares, para evitarem que o sistema entrasse em colapso.

Daqui se infere que tiveram que ser os contribuintes a assumir o ónus dessa atitude de “bombeiro” dos governos ocidentais. E como, na sua maioria, esses governos também se tinham tornado despesistas, a verdade é que “os mesmos de sempre” se vêem com a carga de suportar a crise.

Porém (pasme-se!), neste cenário bastante cinzento para as classes de menores rendimentos e para a classe média, as classes mais altas (salvo uma ou outra exceção) não têm sentido grandemente os efeitos da crise. Aliás, para o segmento da população com maiores recursos financeiros estes tempos “difíceis” têm sido de feição.

E nem sequer precisamos de sair do país para ilustrar esta situação! Aponto alguns exemplos.

Segundo um estudo internacional apresentado já este ano (referente a 2009), Portugal segue os demais países do mundo no aumento do número de milionários. Assim, e em plena crise, 11 mil portugueses já têm fortunas acima de um milhão de dólares (perto de um milhão de euros). Ou seja, o número de milionários no nosso país cresceu mais 5,5% do que no ano anterior!

Talvez o estudo explique o próximo exemplo.

No mês passado, ainda sem estarem disponíveis números concretos do INE sobre o sector do Turismo, alguns dados já permitiam antever que o Verão de 2010 acentuou uma tendência, já do ano de 2009, que evidencia um aumento no número de estadias nos hotéis de 5 estrelas em Portugal, contrariando o decréscimo na ocupação dos restantes hoteis nacionais. Ou seja, em tempos de crise, os empreendimentos turísticos de luxo são os únicos que conseguem fugir a ela.

Poderia apresentar inúmeros exemplos de que, nesta lógica neoliberal em que vivemos, as crises económicas vão continuar a acontecer porque não atingirão grandemente os mais abastados.

Concluo apenas com uma notícia já deste mês de Novembro, segundo a qual, os quatro maiores bancos portugueses, esses mesmo que aparentemente estariam em apuros “vitimados” pelos mercados financeiros, aumentaram os seus dividendos nos primeiros nove meses de 2010. E agora apresentam lucros na ordem de 4 milhões de euros por dia!

Perante tudo isto, e quando estes paradoxos são gradualmente mais gritantes e se tornam cada vez mais comuns, há que parar para pensar “onde é que nós iremos parar?”

Uma ordem económica que permite tais desigualdades não pode continuar. A sociedade civil – os milhões e milhões a quem a crise efectivamente atinge – tem que se mobilizar contra a perpetuação deste sistema injusto e excludente. Os cristãos também não podem compactuar com ele. Teremos que fazer ouvir a nossa voz. Não podemos calar-nos nas críticas a este sistema. É urgente que deixemos a nossa posição, tantas vezes de complacência activa ou passiva, e entremos em diálogo com todos aqueles que buscam alternativas. Para que as alternativas possam um dia surgir e para que nós, por coerência com a mensagem libertadora de Cristo, possamos colaborar na sua construção.

Jorge Caravalhais escreve segundo as normas do recente acordo ortográfico