Semana das vocações De quando em quando, ouvimos por aí falar de uma tal ‘crise de vocações’. O tema vem à baila principalmente nesta semana que me é muito querida, pelo facto de se dar maior atenção ao Seminário – a semana de oração pelas vocações; todas elas, não só algumas. Fala-se então da Crise de Vocações. Mas qual crise…? Costuma-se dizer que Deus nunca nos dá coisa nenhuma, sem nos dar a capacidade de no-la sustentar.
No último Verão, a Igreja de Aveiro permitiu-me ir em missão durante algum tempo. Nessa experiência tive muitas oportunidades de ver, de intervir, de espalhar um Homem que ressuscitou e de aprender que com a simplicidade se recebe muito mais do que com a complicação. De facto foi muito mais o que trouxe dentro de mim, do que o que lá deixei.
Estando em Lwena, o esforço de reconstrução depois da guerra está sempre presente, e a Igreja toma-lhe a dianteira. Assim, depois de aprender os caminhos, deslocava-me sozinho da missão, levando trabalhadores para as aldeias, isoladas até então por causa das minas. Ficávamos nessas aldeias perdidas do interior de África durante alguns dias, os necessários para soldar, pintar ou mesmo assentar pedra. Durante esse tempo, integrávamo-nos na aldeia. Uma das que nos acolheu no trabalho de erguer uma escola chamava-se ‘Ermanalu’. Ficava distante, muito distante. A visita do padre era rara, a distância incrível e o número de aldeias muito grande para tão poucos sacerdotes. Nessa aldeia, a igreja era um telheiro que abrigava a todos por igual. Na vida dura que se levava, havia todos os dias um momento de céu debaixo do colmo protector da capela, onde Cristo se tornava presente sempre em acolhimento e fraternidade. Na aldeia havia um catequista, havia um papá Soba, havia mulheres, crianças, homens, uns mais novos, outros mais velhos. Uns tinham mais que os outros, mas tudo era partilhado. Ninguém passava fome e não havia órfãos. Havia sempre alguém que tomava conta de alguém. Guardavam-se em Amor uns aos outros e o Cristo ia para a vida do dia-a-dia.
Todos os dias se encontravam no tal abrigo com uma cruz de dois ramos quaisquer e ali faziam festa. Faziam oração, liam a Bíblia em chokwé, os pequenitos tinham catequese, a areia servia de quadro para escrever! Partilhavam ali os problemas humanos e eclesiais, comprometiam-se em comunhão. Dali de dentro, levavam a força para o mundo, para actuar e transformar aquele espaço em que viviam. Viviam mesmo fundados em Cristo, partilhan-do a pobreza, lutando contra ela, pen-sando a justiça em comunhão, em Amor. Tudo em admiração profunda d’Aquele que viveu lá longe, no tempo dos seus antepassados, mas que continua vivo, porque venceu aquele temor da morte que antes d’Ele havia!
Quando vinha o padre, ele era especial, porque era um deles, era igual, integrado, sem ilusões. Partilhava da vida comum quando estava. Se havia uma galinha, era para todos; se só havia mandioca, era para todos. O padre era um deles, em comunhão e alegria, em simplicidade. Fazia os sacramentos, a missa, a reconciliação, a festa que, no meio daquele nada aos olhos europeus, era, na realidade, muito! Muito grande e muito próxima daquilo que Jesus partilhou connosco.
Acabando a reflexão, pergunto eu… Com uma Igreja assim, projectando aquela comunidade para cá, onde está a crise de vocações? Com uma Igreja como aquela a que o Vaticano II abriu portas, remato parafraseando um padre da nossa diocese, que muito estimo, na resposta dada por ele a alguém que o provocava acerca da tal ‘crise das vocações’: “Ó meu amigo, com uma Igreja para onde caminha a nossa, ainda vamos ter é padres a mais!”
