Revisitar o Sínodo Diocesano Estamos ainda a celebrar os quarenta anos da Gaudium et Spes. E, a menos de um mês das eleições presidenciais, uma Igreja que quer estar ao serviço da pessoa humana e da sociedade, não pode permitir-se a omissão de não estimular à consciência cívica, à responsabilidade e participação nas coisas públicas, que é como quem diz: não pode permanecer alheia ao esforço de promover o compromisso explícito dos cristãos em projectos que visem claramente o bem social, o bem comum.
A Igreja não tem um partido político, não tem um candidato a presidente. Mas tem princípios evangélicos de vida. “Reconheça-se aos cristãos, a nível pessoal, uma total liberdade nas suas preferências políticas, tendo em conta os princípios evangélicos e as referências da ética cristã”. Assim diz o Sínodo Diocesano.
O que quer dizer que não cabe à Igreja indicar ou apoiar candidatos presidenciais. Mas cabe-lhe a grave responsabilidade de alertar os seus fiéis para os projectos que apresentam e a prática que levam, para ajudar a ponderar se estaremos em presença de quem promova ou contrarie os princípios evangélicos, em coisas tão fundamentais como o direito à vida, o reconhecimento e defesa da família, a moralização da vida pública, o empenho pela justiça social, a defesa de uma educação integral e inclusiva… Esses são os limites de uma escolha libertadora.
Deste modo, realiza a sua missão de “promover uma cultura da responsabilidade política e educar os cristãos para a participação crítica na vida social e política”. Laboratório privilegiado de participação e corresponsabilidade, a própria Igreja deve ser espaço de reflexão para o esclarecimento e debate político, com vista a esta cultura da responsabilidade.
Como também se deve empenhar em promover “na opinião pública, a importância, o respeito e a dignidade dos que são chamados a exercer a autoridade na comunidade política, como serviço à comunidade”. A atitude crítica construtiva e respeitosa, face aos poderes estabelecidos, constitui exemplo e estímulo para um clima de educada interpelação mútua, sempre positiva. A ponderação não é omissão: “Evite-se, a nível eclesial, tudo o que seja ou pareça indiferença, partidarismo ou concorrência”… É, antes, a intervenção clarificadora, para que se estabeleça um “relacionamento criterioso” com os detentores do poder político.
Construtores da Cidade de Deus, os cristãos têm de a fazer com o barro da Cidade dos Homens, insuflando-lhe nas realidades constitutivas o Espírito que lhes dá o sentido autêntico, que lhes abre horizontes e confere novas profundidades.
Querubim Silva
