Crónica da expedição solidária a Marrocos

SDAM / ORBIS – Expedição Humanitária a Demnate (Marrocos), de 7 a 16 de Abril “A casa onde vais entrar não é tua, é do teu irmão. É diferente da tua, mas ele estende-te a mão. Abraça-o com ternura.”

A viagem foi cansativa, para o corpo obrigado à concentração da condução, da navegação por GPS e com mapas dobrados e cheios de pó, pela atenção em seguir o jipe da frente e não perder o de trás de vista. Foi ainda mais cansativa para os olhos, exaustos já de verem pobreza extrema e miséria. Aqui mesmo ao lado, apelos e choros tão desesperados quantos os de Angola, Moçambique e Guiné, tão esperançosos quanto os da América Latina e da Amazónia profunda. Cansa ver tudo isto, cansa ver que há tanto para fazer ainda na luta contra a pobreza, cansa ver um mundo que ainda aceita que hoje, enquanto fizermos seja lá o que for, entre o nosso acordar e o nosso adormecer, com o nosso estômago composto de 4 ou 5 ou 6 refeições, mais 20 000 pessoas terão morrido de fome… E amanhã igual, e depois igual, e depois…. Um mundo que aceita que, em Angola, desapareçam das farmácias vacinas da cólera, para aparecerem no mercado negro a preços impossíveis, um mundo que aceita que haja pessoas que nem vestir de seu tenham, nem comida, nem nada.

Alívio da chegada

Não esperava, aqui mesmo ao lado, para lá do Alto Atlas, à entrada de África, bem perto das cidades turísticas de Casablanca, Rabat ou Marrakesh. A mesma miséria que já vi lá longe.

Demnate é uma pequena cidade, que faz lembrar um lugarejo qualquer de África. Já se cheira o deserto, apesar de, à volta, haver montanhas de um lado, pedras do outro. Há alguns fios de água e o trigo que ele vai deixando cultivar.

Ao fim de três dias de condução, chegámos lá, com os jipes a arrastar o chão, as suspensões bem torcidas. Foi um duplo alívio descarregar a ajuda humanitária. Poupar os carros finalmente do peso e cumprir a missão confiada. Nos garotos que fui vendo, fui notando a pobreza e a simplicidade. Uma aproximação, desconfiada primeiro, mas depois, com um gesto, um toque de bola ou uma flor, o sorriso era o mesmo que o dos outros garotos: sujo, delicado, sincero, como os de Angola, os da Amazónia, os de Portugal. Muitos dos miúdos eram vestidos pelos professores; a escrita era em lousas, as orações era onde calhasse, virados para Meca, às horinhas certas. Ouvia-se o canto do Minarete e o tempo parecia correr mais devagar, mais sereno. Senti naqueles momentos que as pessoas que vi ajoelhadas estavam a falar com o Deus com quem eu falo. Era o mesmo!

Objectivo maior do que nós

Depois de alguns dias em Demnate, seguimos caminho, para as aldeias assistidas pela AESVT. Aí, perdidos entre montanhas de pedra e bancos de areia, no meio do nada que sabia a absoluto, bastava parar cinco minutos que nos aparecia gente. Pediam água, canetas, calçado. O sentimento de impotência invadia o grupo nesses momentos, sentíamos um certo murmúrio na nossa consciência de humanidade. Os intercomunicadores ficavam em silêncio nesses momentos em que o tempo se alongava por visões de pessoas, lugares diferentes, que já não deviam existir. O pó inundava-nos, metia-se por todo o lado aquela areia solta, fininha e compacta, os olhares, o cansaço, a sujidade, as olheiras, o esforço, nosso e dos carros, as pedras, os obstáculos.

É isto que trago de mais uma missão. Diferente esta: não fomos para estar, fomos para transportar; mas Deus entrou-me na mesma pelos olhos dentro, de uma maneira que não nos deixa fugir nem sossegar.

A viagem é isso, uma milagrosa sucessão de obstáculos que os carros vencem, que nós vencemos, porque o objectivo é maior do que nós. Representámos a Diocese de Aveiro, a Escola de Ílhavo, a Cáritas Diocesana, os Bombeiros, todas as instituições e, mais do que isso, todas as pessoas que nos deram de si para levarmos a irmãos nossos, diferentes na fé, mas filhos do mesmo Pai.

A viagem é isso: poeira, pedra, pneus furados, esforço físico e força, para ver tudo o que se viu; é o coração ao fim da tarde; é o alívio de montar a tenda para descansar ou abrir o saco cama sobre a cama poeirenta de um qualquer hotel; é o refugiar-se nos beirais das casas e mesmo assim levar com a areia na cara; são as mãos sujas de óleo; são as pessoas que se cruzam, por momentos, no nosso caminho, que nos ajudam, que nos tocam, que são nómadas como nós e estão sempre noutros lugares; mundos que não são os nossos, mas que vamos sentindo como um só e onde vamos deixando marcas, trazendo cicatrizes, histórias das coisas da manhã, do fim da tarde, das horas de oração, histórias de partilha e Amor, disfarçadas de ajuda humanitária…

A viagem é isso, foi e será, até que o mundo seja mais justo e fraterno.

Pedro A. Neto