Cuidado com este menino

A Árvore de Zaqueu São densos, os textos de hoje. Cheios de segundos sentidos. Toda a Bíblia, e particularmente o Antigo Testamento, ganha mais sentido e profundidade ao ser posto em contra-luz com o Novo Testamento. A missão de Jesus aparece iluminada desde o Livro do Génesis, e rasga nesses textos um horizonte cada vez mais perceptível. Como afirmam os peritos, «a Bíblia explica-se pela Bíblia».

Todos os bébés despertam o nosso afecto, com o encanto da sua fragilidade e porque simbolizam a esperança de melhores tempos.

E não é o que Isaías nos parece querer dizer? Quando brotar o rebento prometido à descendência de Abraão e de David, «o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir». Isaías continua, nesta e noutras passagens, a descrever enlevado uma suspirada «idade de oiro», quase com as mesmas imagens que o poeta Virgílio utilizará para a descrever, poucos anos antes do nascimento de Jesus, mas aplicando-as a um desejado herói romano (“Écloga IV” das “Bucólicas”). Sempre todas as culturas sonharam com um salvador.

Mas já o evangelho do domingo passado nos apresentava um Jesus severamente juiz. E hoje, S. João Baptista fala do Cristo forte, que recolhe o trigo no celeiro e lança a palha para o fogo. Os próprios escribas e fariseus, que apregoavam hipocritamente um arrependimento que eles próprios não praticavam, tornaram-se responsáveis pela «cegueira» do «povo escolhido», e por isso são visados com palavras duríssimas, anunciando um julgamento que se aproxima continuamente.

O próprio Isaías só fala da harmonia universal, depois de apresentar alguém muito especial, cheio de sabedoria e de fortaleza e que, «não julgará segundo as aparências». Combaterá e vencerá a violência e a falta de sensibilidade a Deus e ao próximo. Quando o fará? Desde sempre, desde então, desde o nascimento de Jesus, agora e até «ao fim dos tempos». «O Deus da paciência e da consolação» (2ª leitura) dá-nos o exemplo de paciência para com a liberdade humana mal administrada e de consolação pelas conquistas da justiça, do amor e do bem-querer. O significado principal de «paciência», no Novo Testamento, é de «perseverança» nos tempos bons como nos tempos maus, quando elogiados e bem tratados, e quando humilhados e perseguidos. Quantas vezes não falará Jesus de que podemos confiar na «paciência» de Deus?

Mas os violentos sofrerão violência, e os «ímpios» (os que não têm o afecto de bem-querer) são como gente sem terra sólida, que um sopro dispersará.

À medida que o «conhecimento do Senhor» encher toda a terra, os povos saberão encontrar bases sólidas para a paz, porque entenderão que «a minha justiça» só é garantida pela defesa de uma justiça global, em que não serão permitidas diferenças escandalosas («escândalo» é um obstáculo que faz cair os caminhantes) dos bens produzidos e muito menos a crueldade de «grandes senhores», seja qual for o país em causa. Dar-se-á atenção à «ética global», tão profundamente estudada pelo teólogo Hans Küng. Para tanto, porém, é mesmo preciso reconhecer que a humanidade trabalha em ligação com o Deus da justiça. Os vários níveis e modos de fé são referidos na 2.ª leitura: todos aprendemos uns com os outros, mas também temos que ter cuidado para não perturbar modos de vida e de crer que, parecendo «simplórios», sustentam uma vida equilibrada e produtiva, material e espiritualmente.

Todo o poder humano de emitir juízos, de julgar, é, nesta linha de pensamento, reflexo da pura presença da Verdade divina. É próprio do Homem julgar, e a correcção do seu juízo depende da familiaridade com que se aproxima da Verdade.

Pegaremos na Verdade com o mesmo cuidado e carinho com que pegamos num menino ao colo? Não custa beijar as crianças. Mas quando elas se fazem adultas e sacodem as nossas vidas…

Cuidado com este «menino Jesus». Será apenas o bonequinho que sai de um caixote de Natal?

Manuel Alte da Veiga