Custa tanto ir para o céu…

A Árvore de Zaqueu Os últimos parágrafos do evangelho segundo S. Marcos (16,9-20), de que faz parte o texto de hoje, não pertencem à redacção original (cerca do ano 70). Formam uma espécie de conclusão, redigida provavelmente já no século II, utilizando elementos dos outros evangelhos e dos Actos dos Apóstolos. Sublinham que Jesus vive eternamente e continua a nosso lado, deixando entrever que também os seus discípulos realizarão «actos espantosos».

Quanto à Carta aos Efésios, comprovou-se ser da autoria de um discípulo de S. Paulo, provavelmente escrita já na viragem do século I para o II.

Das «histórias» de hoje, a dos Actos é portanto a mais antiga, mas ela própria é uma reelaboração da primeira referência que faz S. Lucas à «ascensão», no seu evangelho (24, 50-51), muito mais sóbria.

Aliás, tanto nos quatro evangelhos como nos Actos dos Apóstolos, as «histórias» sobre Jesus de modo nenhum se devem levar à letra: não só porque divergem muito umas das outras, como também usam imagens e descrições cheias de simbolismo, de acordo com a perspectiva dos redactores, e ao estilo daquele tempo (participar em refeições, viagens ou no trabalho de todos dias… são exemplos de como era vividamente sentido o «convívio» com os discípulos).

Todas estas leituras focalizam um tema central: Jesus morreu, como qualquer ser humano. Porém ele próprio, durante a sua missão, sublinhou a confiança no Pai «que é um Deus não dos mortos mas dos vivos» (Lucas 20,38); e que ele, Jesus – o «Cristo de Deus», deixaria o tipo de existência em que vivemos, para viver a única existência plena, que é a própria de Deus, uma existência que se pode definir como plenitude da alegria (Mateus 25,21); e que só depois de viver glorificado junto de Deus é que o seu Espírito manifestaria a sua força em todas as pessoas que o quiserem receber.

Tornou a sua acção no mundo mais eficaz, mostrando que não receava entregar o projecto de um «reino de justiça» nas mãos dos «Homens de boa vontade».

Inaugurou-se assim a era do «baptismo no Espírito Santo»: só quem o aceita é que se torna capaz de mudar uma vida mesquinha numa vida que valha a pena – capaz de «dar o corpo ao manifesto». A nossa «salvação» só é autêntica, se não ficarmos «a olhar para o céu», à espera de que «o herói» nos salve. Compete-nos lutar por tornar cada vez mais real «o céu na terra», com programas de justiça social e de bem-estar pessoal «já nesta vida». Felizmente, há gente que não arreda pé nem se vende, para que as relações humanas não sigam o critério da exploração e opressão. Sem este testemunho, a esperança não ganha raízes.

Jesus Cristo não veio ao mundo para «subir ao céu», como se estivesse farto desta vida (embora razões não lhe faltassem…). Veio sim para marcar presença na terra. Durante a sua vida, chamou a atenção, de muitas maneiras, para a hipocrisia daqueles que só se preocupam por «olhar para o céu» – acabando muitas vezes por cair nos buracos da terra… e arrastar na queda a muitos outros.

A palavra «céu» e sobretudo «terceiro céu» era uma maneira respeitosa de referir a dignidade inacessível de Deus. «Subir ao céu» pode significar o estado supremo de experiência divina e de intimidade com Deus (2.ª Carta aos Coríntios 12, 2-4). A festa da Ascensão é o nosso modo de celebrar «como Jesus Cristo vive».

Porém… «custa tanto ir para o céu!» – Foi o desabafo de uma pessoa no leito de morte. Não vale a pena iludir este sofrimento, este espinho que a todos fere ao longo da vida. A nossa cultura ainda não conseguiu a partilha clarividente do sabor da vida a incluir o sabor da morte. De tal modo que a vida sofra a morte como um acto de confiança no trabalho dos vindouros, uma confiança que precisa de ser construída enquanto nos sentimos «bem vivos». Confiantes de assim evitar a solidão dos últimos dias e o medo dessa solidão; e aumentar a coragem e alegria na vida de todos nós.

A qualidade da vida (na sua simbiose espiritual e material) só é garantida se houver quem a viva a sério. Ora ligar-se à vida é ligar-se a Deus: é um adentrar-se no mistério de Deus, que é o mistério da existência de todas as coisas, da disparidade dos nossos sentimentos e de haver o bem e o mal. E ligar-se a Deus é o verdadeiro «subir ao céu».

Afinal, bem de acordo com S. Marcos, foi-nos dado a todos o maior dos poderes miraculosos: fazer o céu na terra.

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)