D. António Marcelino: “Nunca tive receio de escrever o que penso”

“A crítica faz bem, espevita”; “andamos todos a necessitar que venha ao de cimo a verdade”, afirmou D. António Marcelino no lançamento do quarto volume de “A vida também se lê”.

D. António Marcelino já escreveu no Correio do Vouga mais de mil textos que deram origem a 1900 páginas em quatro volumes intitulados “A vida também se lê”. O último, o quarto, foi lançado na sexta-feira, 1 de junho, no Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC).

O bispo emérito de Aveiro, cujos textos são publicados em primeiro lugar neste jornal e depois reproduzidos um pouco por todo o país, incluindo ilhas, revelou que tem alguma facilidade na escrita, pois senta-se e “meia hora depois o texto está feito”. Por isso mesmo considera que tem o dever de pôr esse talento a render. “É um dever de quem está no trabalho ao serviço dos outros”, afirmou.

D. António Marcelino, atualmente com 81 anos, começou a escrever os artigos semanais neste jornal em meados de 1981, pouco depois de chegar à Diocese de Aveiro. Será, tanto quanto é possível averiguar, quem há mais tempo escreve semanalmente, sem interrupções, na imprensa portuguesa. Fá-lo com um sentido de interpelação, porque, como afirmou “andamos todos a necessitar que venha ao de cimo a verdade”, porque “a Igreja não obriga ninguém”, mas este “é o tempo das propostas” e também porque “a crítica faz bem, espevita”. E escreve com total liberdade. “Dizem que agora escrevo com mais liberdade – até bispos já mo disseram -, mas as coisas não são como são só porque as pessoas o dizem. Nunca tive receio de escrever o que penso, mesmo em momentos políticos mais delicados. O que acontece é que agora tenho mais tempo para ler e refletir”, disse, lembrando as permanentes ocupações enquanto bispo residencial, até finais de 2006, e evocando ainda os tempos pré-democráticos, quando escreveu sobre a reforma agrária no Alentejo e a descolonização, deixando descontente um latifundiário que era grande benfeitor do seminário da sua diocese, Portalegre-Castelo Branco.

Interrogado pela assembleia se em algum momento foi confrontado por pessoas que não gostaram das suas afirmações, mormente responsáveis políticos, como quando criticou a maçonaria, num artigo de 2007, anos antes de vir a público a influência que de facto esta organização tem na vida política nacional, D. António Marcelino afirmou que sim. Uma vez uma organização ligada à família, mas que tem assumido posições claramente opostas ao pensar cristão, ameaçou-o com o tribunal. O prelado prometeu insistir na denúncia e revelar mais factos e a ameaça ficou por ali. Noutra ocasião, uma ministra da Educação disse que o bispo mentia. D. António retomou o tema, “Afinal, senhora ministra, quem mente?”. O sequente silêncio da ministra foi revelador. Quanto à maçonaria, houve políticos portugueses que se sentiram incomodados. E mostraram esse descontentamento. Porém, o bispo emérito deixou perceber que até gostaria que houvesse mais diálogo entre esta organização secreta e a Igreja católica. Neste sentido, por um lado, contou algumas diligências pessoais para o diálogo, em Portugal; por outro, relatou como o diálogo terminou, ao nível de Roma, quando a maçonaria não deixou que Igreja lesse os livros dos ritos de iniciação. Assinadas pelo cardeal Ratzinger (agora Bento XVI), saíram então determinações que afastam claramente católicos e maçons.

D. António Marcelino olha para a vida na sua totalidade, mas reconhece que há temas que lhe são especialmente caros, o que possibilitou agrupar os textos nos livros em secções como família, educação, jovens ou a participação política. Claro que para escrever sobre tudo isto é preciso estar tanto à vida e ao mesmo tempo estar informado. “Procuro ler o mais que posso. Ando sempre uma revista ou o último jornal. O tempo que se perde à espera de algo ou de alguém é para ler”, afirma.

Este quarto volume encerra um ciclo, como disse o autor, que agora está empenhado na reflexão sobre os 50 anos do Concílio.

D. António Francisco, falando no final da sessão, que contou com a leitura de textos retirados dos quatro volumes, considerou que “os ciclos não se fecham mas são como elos ligados”, incentivando a leitura da “vida que nos espalha o dom de Deus”. Agradeceu, por isso, ao seu antecessor e congratulou-se por os textos de jornal, habitualmente “lidos com o sentido da pressa”, se encontrarem agora em livro. “Abre-se o livro, saboreia-se, digere-se melhor o que se lê e isso alimenta mais”, afirmou o Bispo de Aveiro.

O quarto volume de “A vida também se lê”, como os três primeiros, foi publicado pela Gráfica de Coimbra. Está à venda na Livraria Santa Joana por 12 euros.

J.P.F.

Duas preocupações na escrita

Quando escreve, tem sempre duas preocupações. Primeira, procurar que o texto seja inteligível, compreendido por todos. Para conseguir este objetivo, em tempos contou com a ajuda da sua mãe, a “primeira crítica”, que por vezes lhe sugeria a mudança de uma ou outra palavra. A segunda preocupação é “não ferir ninguém”, o que não quer dizer que os textos sejam inofensivos. Pelo contrário. Quer dizer que não há visados diretos, mas qualquer um, no seu pensar e agir, pode sentir-se tocado e criticado pelas situações descritas, pelos erros denunciados, pelos valores apontados, pelos princípios sublinhados. Isto quer dizer ainda que a escrita de D. António Marcelino, nas páginas dos jornais, é um exercício da atividade profética do pastor. A escrita é leitura e interpretação da vida, não é um fim em si, mas um meio para melhor viver em perspetiva cristã – daí o feliz título dos quatro volumes: “A vida também se lê”.