D. José Policarpo “não gostaria de ver os púlpitos das homilias de domingo transformados só em púlpitos de campanha pró-vida”, visto que “não é aí que o esclarecimento faz mais falta, porque os ouvintes das missas de domingo são aqueles que normalmente já têm a sua posição”. No entanto, compreende que tal atitude “vai depender muito da arte e da discrição de cada sacerdote” e considera: “é natural que quem está empenhado na campanha pelo “sim” tente neutralizar a influência da Igreja, que é a força mais notória pelo ‘não’”.
Em entrevista à rádio TSF e ao Diário de Notícias, no sábado passado, 28 de Outubro, o cardeal-patriarca de Lisboa mostrou-se convencido de que “a abstenção vai ser fatal outra vez” e disse não ser “completamente justa” a pretensão do ministro António Costa, que anteriormente havia afirmado que o Parlamento legislaria, caso ganhasse o “sim”, mesmo que o referendo não fosse vinculativo (isto é, se votarem menos de 50% dos recenseados).
Sobre a posição do episcopado português e da Igreja, D. José Policarpo reafirmou que “o aborto não é uma questão religiosa, é de ética fundamental” e que “a doutrina da Igreja não mudou e não vai mudar”; no entanto, não é função dos bispos “estar com eles [movimentos do ‘não’] na primeira linha desta luta”, mesmo que a maior parte dos movimentos tenha referências católicas.
Respondendo sobre se a Igreja Católica vai fazer campanha, D. José Policarpo afirmou: “Se a campanha for motivada no sentido de um debate esclarecedor das consciências, não teria dúvida nenhuma em dizer que entro na campanha. Se a campanha se assemelha à anterior, a uma campanha partidária, penso que aí não é o meu lugar. Gostaria que as pessoas não perdessem a calma…”
D. José Policarpo pronunciou-se ainda, em temor gerais, sobre a actuação do Governo. “Tenho acompanhado com interesse a determinação em governar, em estudar os problemas e fazer reformas estruturais (…), em não ficar dependente da plateia e do que pode acontecer amanhã em termos de opinião pública”.
J.P.F.
Comunicado contra as dúvidas
Em finais Setembro de 2006, D. José Policarpo, num encontro com jornalistas, afirmou que o aborto é uma questão de ética fundamental e não especificamente religiosa. Tais palavras foram interpretadas como convite à liberdade de consciência e à abstenção, o que motivou “correspondência abundante” da parte de católicos. “Só faltou acusarem-me de ser o promotor da lei [de despenalização]…”, referiu D. José na entrevista ao DN e à TSF. No dia 19 de Outubro, para esclarecer as afirmações que causaram “confusão e mesmo indignação em algumas pessoas”, D. José Policarpo emitiu um comunicado. Citamos parte do terceiro ponto:
“Fique claro que todos os membros da Igreja e todos os que defendem a vida são chamados a participar nesse debate esclarecedor das consciências. Compete aos leigos organizar e dinamizar uma campanha, no concreto da sua metodologia. O papel dos pastores é apoiar e
iluminar as consciências com a proclamação da doutrina da Igreja, anunciando o Evangelho da Vida. Aos Sacerdotes da nossa Diocese eu peço que se empenhem nesta proclamação da doutrina da Igreja sobre a vida, mas que saibam sabiamente marcar a diferença entre o seu ministério de anunciadores da verdade e as acções de campanha, necessárias e legítimas no seu lugar próprio. Mas os leigos poderão contar com todo o nosso apoio nesta luta por uma Lei que respeite a vida”.
