Questões Sociais A sociedade portuguesa acha-se marcada, há muito, pela discórdia permanente. À primeira vista, a discórdia centra-se na contestação sistemática dos governos democráticos, sejam eles quais forem. No entanto, indo mais longe, verificamos que afecta inúmeras relações de natureza política, laboral, profissional, económica, social, cultural, ambiental, religiosa, familiar…; a própria vida interior de muitas pessoas também se encontra marcada por discórdias várias.
Seria utópico defendermos a instauração imediata da concórdia: algumas pessoas e forças sociopolíticas acham-se tão extremadas que defendem a eliminação dos seus adversários; acresce que os defensores da concórdia imediata se apresentam, por vezes, tão idólatras da sua posição que agravam a discórdia; e, ainda, não falta quem defenda o recurso a um regime ditatorial que lhe agrade, à direita ou à esquerda. Por tudo isto, a procura de concórdia é um processo lento que implica a preparação interior de cada um de nós e, em simultâneo, a prática da concertação permanente.
João Paulo II designou a preparação interior por «conversão», entendida como «a mudança de comportamento, de mentalidade ou de maneira de ser» (encíclica «Sollicitudo Rei Socialis» – «Solicitude Social da Igreja» – 1987, nº. 38). A «conversão» traduz-se, por exemplo, no reconhecimento de que não temos soluções completas para os diferentes problemas e de que, portanto, seria insensata, para além de orgulhosa, qualquer tentativa de imposição das nossas posições a outrem. Na mesma passagem da encíclica releva-se, «como valor positivo e moral, a consciência crescente da interdependência entre os homens e as nações»; daí decorre o imperativo de procurarmos as soluções através da concertação, ou procura de entendimentos.
A concertação é a via mais válida de procura de concórdia, no domínio sociopolítico, tal como noutros. Ela já se insere, há muito, na prática dos países com democracia mais amadurecida, e processa-se especialmente através do diálogo, visando entendimentos entre as partes envolvidas
Existirão condições, em Portugal, para a concertação sociopolítica? – É o que será analisado no próximo artigo.
