Questões Sociais As orientações da doutrina social da Igreja (DSI) sobre a greve acham-se sintetizadas no nº. 304 do «Compêndio» dessa doutrina, elaborado pelo Conselho Pontifício «Justiça e Paz», em 2004, e editado em Portugal pela «Principia – Publi cações Universitárias e Científicas». Neste nº. 304, é reconhecida a legitimidade da greve, é apresentada uma definição da mesma e indicam-se algumas condições a respeitar na sua concretização. A greve é definida como «a recusa colectiva e concertada, por parte dos trabalhadores, de prestarem o seu trabalho, com o objectivo de obterem (…) melhores condições de trabalho e da sua situação social».
A greve é legítima, à luz da DSI, quando verificadas as seguintes condições: (a) – ser «inevitável», para se obterem os objectivos visados; (b) – terem sido esgotados «outros recursos para a solução dos conflitos»; (c) – não ser «acompanhada de violência»; (d) – «visar objectivos directamente ligados às condições de trabalho»; (e) – não visar objectivos «contrários ao bem comum».
Parece recomendável que os cristãos analisem as greves que já se realizaram, e as que se perspectivam, à luz destas condições. E é indispensável que a análise não se faça à margem dos trabalhadores directamente envolvidos; na verdade só eles conhecem por dentro as situações em que se encontram, a importância das reivindicações, o esforço realizado para o respectivo sucesso…Também é necessário ter em conta as posições das entidades empregadoras, visando em especial a aferição da sua capacidade para corresponderem às reivindicações dos trabalhadores. Necessário é, igualmente, que seja tido em conta o bem comum mais alargado, para além dos direitos e interesses dos trabalhadores e empregadores envolvidos; por isso, há que ponderar os contributos de representantantes do Estado, bem como de peritos e de instituições com especiais responsabilidades nos domínios ético, científico e outros.
Infelizmente, os cristãos em geral, como os outros cidadãos, não têm o hábito de reflectir sobre estas questões; por isso, quando acontecem as greves ou respectivas ameaças, tendem a tomar posições instintivas, a favor ou contra. Este alheamento é tanto mais nocivo quanto os problemas laborais se vêm agravando; ele denota uma grave demissão e contribui, inevitavelmente, para a agudização dos conflitos.
