Dá-me de beber

Poço de Jacob Impressiona-nos sempre este relato do Evangelho de S. João, no capítulo 4. O encontro de Jesus com os homens, esse Seu jeito de se fazer encontradiço e de não se cansar de buscar o homem, aparece no Evangelho em passagens maravilhosas.

Diz-se que a melhor maneira de se fazer teologia é ver como Deus se atravessa na vida de cada homem, os de ontem, a quem chamamos santos, e os de hoje, com os nossos contemporâneos e nós mesmos. É Deus Quem busca o Homem. É Deus Quem ama primeiro. É Deus Quem se mostra necessitado de nós, ainda que Se baste a Si mesmo. Por isso, esse “Dá-me de beber” que ele diz à Samaritana e que repete no alto da Cruz impressiona-nos. Não porque seja um judeu que fala com um samaritano, sendo povos que não se entendiam. Nem porque, para a época, era estranho dirigir-se a uma mulher, sozinho, e com a vida que ela tinha. O que nos impressiona é a Fonte dizer ao sedento: “Dá-me de beber”.

Que tens Tu, Senhor, para procurares água onde existe vazio?

Sabemos que é o Amor imenso que Ele tem por nós. Um santo carmelita dizia que Deus ama-nos exageradamente. Na sua humanidade, o que por si já é loucura de Amor, Deus mendiga amor ao homem a água viva que corre dentro de nós pelo Espírito que nos foi dado. “Dar de beber” a Deus foi entendido pelos santos e místicos como um convite a darem-se, sem reservas, à Vontade Soberana de Deus.

Madre Teresa de Calcutá, no “Tenho sede” da cruz, viu o sentido da sua vida e missão. “Tive sede e destes-me de beber” será uma das razões para o “Vinde, benditos de meu Pai”. O amor incondicional ao Amor que é Deus e à Sua Vontade, que se traduz no amor, sem reservas, ao irmão, é o jeito que Deus nos indica para ”matar” a Sua sede de nós.

Sinto-me eu alvo desse amor que me atinge como raio fulminante? Sinto que na minha pequenez posso satisfazer o Deus sedento que se me põe no meu caminho? Sinto que a vida espiritual não são quimeras de mitologia e sensações, mas o Amor prático e provado, que se traduz na caridade? Este grito de Deus junto ao poço de Jacob ecoa por todo o mundo. Quando abrires a tua porta, bem podes encontrar o Senhor, ali, sentado, para te pedir: “Dá-me de beber”.

P.e Victor Espadilha