Poço de Jacob – 108 Estar à frente de um lar de idosos tem muitos desafios. É como uma paróquia dentro de outra paróquia. Funcionários, utentes, seus familiares, a comunidade, com tudo o que a vida de relação implica. Os idosos estão fragilizados. A sua vida ali manifesta o que foi sua vida antes de ali chegar. Muitas vezes, são eles que o querem e sentem-se integrados. Outros entendem as impossibilidades familiares que levam as pessoas a ali deixarem os seus pais, por vezes com o sofrimento de não os poderem acolher. Mas muitos, simplesmente, despejam-nos ali. Não os visitam. Gozam da sua herança, fruto de uma vida de trabalho. Os idosos definham de saudades. Vi alguns morrerem de tristeza e tenho casos desses, ainda hoje.
Há dias um filho foi levar o pai. Vive mesmo ali ao lado. Nem o conduziu ao quarto. Não quis saber como ficaria. Pousou a mala, cumprimentou e saiu. Deixou o pai, consternado, ali, no “hall” de entrada. Lá fora deve ter respirado, alegre, por se ver livre do fardo. Também é pai e até avô. Não invejo em nada aquilo que o espera.
Por vezes, esse trato corresponde a muitos traumas de filhos que não foram suficientemente amados e cuja fé é demasiado pequena para perdoar e esquecer. Também entendo. Uma filha assim, mal tratada quando nova, quando lhe falámos do pai que precisava de a ver, ela perguntou se aquele “lixo” ainda não tinha morrido. Chocou-nos imenso. Histórias como esta multiplicam-se. Temos medo de julgar pois nada sabemos dos bastidores. Mas o certo é que nos perturba e cansa, a nós, que jamais sujeitaríamos os nossos pais a uma vida que eles não escolheram. Viveram toda a vida em família a organizarem as suas vidas e as nossas, por vezes com intromissões que nos incomodaram. Mas creio que o fizeram muitas vezes movidos pelo amor, embora haja casos gritantes de tirania paterna-maternal. Ali os idosos andam sujeitos ao toque da campainha como se estivessem num convento.
Uma vez vi uma idosa muito triste e perguntei-lhe se ela queria algo e ela disse que queria estar na casa do seu filho. Ele nunca a visitava. Mas há bem pouco tempo emocionei-me muito. Uma idosa conhecida por ser muito difícil gritava imenso na hora do deitar. Estava na cadeira de rodas. Fui ter com ela e perguntei-lhe por que gritava e ela queixou-se de querer ir para a cama e não a virem buscar. Tentei explicar que as funcionárias estavam a deitar outras e já viriam. Então ela olhou-me com um olhar muito vivo e brilhante pela emoção e disse-me: “Então, dê-me um beijo!” Ela tem 12 filhos. Beijei a sua testa com o carinho dos doze filhos juntos, que bem podiam visitá-la mais vezes, sendo uma grande ausência. Ela acalmou. Dormiu bem toda a noite. Eu retirei-me para chorar. Pensei na minha mãe… Como a deixariam ali assim tão só? Ela, bem lá no fundo, só queria um carinho de um filho. Um beijo. Apenas um beijo para poder dormir em paz. Um beijo que ela deu nos seus doze bebés, embora fosse uma mulher dura do campo, que não convivia com a mediocridade. Um beijo para aquecer o seu coração. Um beijo para se sentir amada e a mais importante mulher do mundo. Um beijo que aliviaria suas dores, sentada numa cadeira de rodas e depois de lhe ter sido extraído um dos olhos.
Um beijo de um filho vale mais que tudo no mundo e compensa todas as dores. Compensa todos os sofrimentos. Até aquela solidão de estar ali só, considerada mulher difícil, porque, bem lá no fundo, ela grita e é impaciente, porque o que ela anseia, não é a comida, mas um beijo que encha o seu coração de um amor de quem tanto se deu e tão pouco recebe…
Depois de ler este artigo, vá ter com o seu pai ou mãe e cubra-os de beijos… Compense-os pelo muito que vos deu, e aproveitem para lhes dizer, ainda em vida, o quanto são amados por vocês, e perdoem o que tiverem feito de mal, pois ninguém entrou na vida sabendo viver e a não errar. Aproveitem para homenagear os vossos enquanto eles vos podem agradecer com o sorriso e a lágrima de felicidade.
Vitor Espadilha
