ISCRA A palavra “pastoral” deriva de pastor, tendo como símbolo e modelo Jesus, o Bom Pastor, que cuida do seu rebanho e pastoreia as ovelhas nos melhores prados, para que elas se tornem saudáveis e robustas. A Igreja prossegue a missão pastoral de Jesus junto do povo de Deus. Nesta acção, preocupa-se com todo o povo, nomeadamente com os membros mais fracos, desprotegidos e pobres. Porém, a missão da Igreja não consiste apenas em cuidar do povo e mantê-lo submisso às suas orientações, como um rebanho descaracterizado e despersonalizado. Muito ao contrário, a Igreja cuida para formar pessoas adultas, autónomas, capazes de serem, por sua vez, condutoras de outras pessoas. Neste sentido, fazer pastoral significa fazer cristãos e cristãs adultos, capazes de intervir para a transformação do meio e da sociedade onde eles próprios se inserem.
Todo o ser humano, criado por Deus para a felicidade, encontra-a exactamente na dedicação ao próximo, quer individualmente, quer inserido na sociedade. Ora os cristãos e cristãs, uma vez convertidos ao amor de Deus, são chamados a edificar os seus irmãos e irmãs. Deste modo, podemos medir o nosso grau de abertura a Deus pelos investimentos que fazemos a favor do seu Reino, isto é, a favor do grande mundo e das pessoas que nele habitam, independentemente da sua condição social, religiosa ou étnica. «Fazer o bem sem olhar a quem» é um velho aforismo que neste contexto ganha todo o seu significado. O cristão e a cristã, inseridos em Cristo pelo seu baptismo e tornados membros do seu Corpo, só podem exprimir a sua adesão a Cristo, a sua articulação como Corpo de Cristo, se viverem, em verdade, uma articulação profunda e comprometida com os outros membros deste Corpo.
Medimos, muitas vezes, sobretudo para fins estatísticos, a prática religiosa de um grupo ou comunidade pela sua participação habitual em actos de culto. Acentuando todo o valor desta participação, fonte e origem de toda a acção cristã posterior, podemos afirmar com veemência que qualquer baptizado praticante, que se julgue dispensado da acção cristã como norma habitual da sua existência, está muito longe de ser um verdadeiro membro de Cristo. A pastoral da Igreja, qualquer que seja o seu âmbito, há-de preocupar-se por formar nos membros das diversas comunidades, pessoal e comunitariamente, a exigência do bem comum, da entrega aos demais, num gesto de verdadeira solidariedade.
Praticar a sua fé apenas para resolver um problema de consciência, diríamos mal formada, e para satisfazer as suas necessidades religiosas, sem consequências a favor dos outros, significa uma total ignorância sobre a identidade cristã. Participar na Eucaristia dominical, na celebração da liturgia das horas ou em outras celebrações da fé, significa beber o entusiasmo da militância cristã, que se exerce no quotidiano da nossa existência. Um cristão ou cristã é alguém que se empenha na justiça social e na edificação da verdade, na luta contra as descriminações ou marginalidades, que se interessa pelos problemas mundiais e os tenta solucionar a partir do lugar onde se encontra, nos pequenos gestos quotidianos que de si dependem.
A pastoral comprometida ajuda-nos a superar o egocentrismo das nossas vidas, que se traduz em invejas, rancores e mal que-renças, e abre-nos ao amor incondicional, à humildade, ao serviço, ao esforço contínuo para que o outro cresça através de mim e por mim. Leva-nos a construir vidas solidárias com os mais pobres e pequenos, capazes de sujar as mãos em tarefas menos honrosas, mas que muito aproveitam à humanidade. Conduz-nos a construir humanidade nos meios onde impera a lei selvática, do salve-se quem puder e do poder do mais forte sobre o mais fraco, a favor de uma fraternidade, na qual se respeitam as diferenças e se vive a equidade, onde o mais pequeno é o mais considerado pela sua própria fraqueza e é elevado à dignidade que lhe advém de ser imagem e semelhança de Deus, de ser um irmão ou irmã de Cristo, membro do mesmo Corpo.
Deolinda Serralheiro
