Sem “esqueletos no armário”, sem fugir a questões, o professor e médico Daniel Serrão expõe-se em “Aqui diante de mim”. O livro foi apresentado na quinta-feira passada em Aveiro.
Numa sessão bem-humorada, foi apresentado na noite de 29 de março, no Centro Universitário Fé e Cultura, o livro “Aqui diante de mim” (ed. Esfera do Caos), uma entrevista de mais de quinhentas páginas ao professor e médico católico Daniel Serrão, conduzida por Henrique Manuel S. Pereira.
D. António Marcelino, referindo-se à obra e ao entrevistado, lembrou as vezes em que estiveram lado a lado na defesa pública de valores humanos, a ocasião em que, de um modo inigualável, o médico portuense falou aos bispos portugueses sobre a morte e a condecoração pelo presidente da República, em 2008, com mais três médicos ou cientistas (Walter Oswald, Jorge Biscaia e Luís Archer), enquanto “geração de ouro da bioética portuguesa”. O bispo emérito realçou as qualidades de Daniel Serrão, “homem, cristão, católico, comunicador”, “obcecado pelo rigor e pelo dever da verdade”, com grande “clareza de pensamento”, que “fala de modo a que todos entendam”.
Henrique Manuel S. Pereira, entrevistador, por seu turno, disse que Daniel Serrão é um “homem com lúcida medida do seu valor”, “compulsivamente comprometido com os outros”, que “nunca fugiu a qualquer da cerca de 1500 perguntas”, o que é “próprio de que não tem esqueletos no armário”.
Daniel Serrão reconheceu que nunca faria um livro de pendor autobiográfico se não fosse em forma de entrevista, por iniciativa de outra pessoa, e que partiu para o empreendimento empenhado na “absoluta verdade, sem nenhum teatro”. Por isso, respondia ao entrevistador no próprio dia em que recebia as perguntas por correio eletrónico. “Se guardasse para o dia seguinte, começava a embrulhar”, rematou.
Adolescência em Aveiro
No espaço de interpelação da assembleia, o médico portuense recordou os tempos de adolescência em Aveiro, uma “adolescência vivida de forma tal e com tal intensidade” que formou para sempre certas linhas do seu caracter e das suas opções. Numa livraria de Aveiro (que havia ao fundo da Av. Lourenço Peixinho), descobriu a beleza dos versos de Fernando Pessoa, que nos anos 40 do século passado era um poeta desconhecido. De Aveiro, com um amigo, partiu para S. Jacinto, num barco a remos, para comer um arroz de pato que sabia a peixe. Com a maestria e o humor habitual, Daniel Serrão explicou por que é que uma ave alimentada a peixe sabe a peixe, enquanto um ser humano, por muito sável que coma, não fica a cheirar a peixe. Basicamente, porque o metabolismo humano decompõe gorduras e proteínas que as aves não sintetizam. A propósito de um episódio menor numa vida recheada de feitos profissionais e sociais, o cientista e o comunicador uniram-se na mesma pessoa para informar e divertir.
“Aqui diante de mim”, sendo uma longa entrevista sobre a vida de uma pessoa, é também uma janela para Portugal, a Igreja católica e a presença cristã no mundo.
Neste livro estão 84 anos de vida, assinalados no dia 1 de março, e de protagonismo científico.
J.P.F.
