David vencido

Corro e julgo-me livre; um vento de sonolência

Revolve em mim os pesados ramos do Desejo,

E minha mão, erguendo-se para a árvore de Ciência,

Tem a forma do fruto que gostaria de apanhar.

Mas – graça insidiosa, desumano malefício –

Alguém morrerá por mim que não o conhecia;

No momento de colher o fruto das minhas delícias,

Uma morte bem-amada sob meus passos dormia.

Providência implacável, de artimanhas tão fecunda,

Ó tu , de meu desejo adorável Inimigo

Que soubeste afastar, com um rosto já submisso,

O jugo delicioso e criminoso do mundo.

Deus gigante! Vê, envergonhada, fraca e nua,

Esta criança que te desafia: nem sua funda tem pedra

E seus joelhos estão feridos por antigas orações,

O meu desejo – este David que quer ser vencido.

François Mauriac (1885-1970)