Olhos na Rua Era um casal modesto de emigrantes da Beira Alta. Apenas um filho. Vieram para Aveiro na esperança de que ele, bom aluno, chegasse um dia à universidade. Este filho era o centro da vida dos pais. Por ele estavam dispostos a tudo. Um dia, por influência de colegas e de traficantes a estes ligados, foi apanhado na rede. Primeiro como passador, depois como consumidor. Quando se quis libertar, a rede não deixou e ameaçou. Consumidor dependente, deixou os estudos e exigia à mãe dinheiro ou meios de o adquirir. Quando o casal tomou consciência do polvo que o sufocava, o filho procurou ajuda. Também eu os recebi. Umas vezes o casal, outras só a mãe que já escondia do pai as ameaças diárias do filho quando não recebia o dinheiro que lhe exigia, proibindo-a de dizer ao pai… A situação agravou-se. Terminou de uma maneira trágica. Batia na mãe e um dia… matou-a barbaramente. Eu não estava em Aveiro nesses dias. Quis, ao regressar, encontrar-me com o pai, mas não sabia como. A meio da manhã, ao descer a Avenida, vi-o caminhar cabisbaixo. Conversamos: “Estou numa vida sem sentido. A minha mulher morta… O filho, por quem fizemos tudo, destrui-nos e agora é mais um assassino na prisão… E eu espero a morte e procuro a morte… Porque viver?”
Há dias vi prender o porteiro de uma escola por traficar droga. Comovi-me ao ouvir os pais preocupados. Comovi-me. Recordei aquele pai. Até quando este drama?
