Débito especial para com a mulher

Texto Na maternidade da mulher, unida à paternidade do homem, reflete-se o mistério eterno do gerar que é próprio de Deus, de Deus uno e trino (cf. Ef 3, 14-15). O gerar humano é comum ao homem e à mulher. E se a mulher, guiada por amor ao marido, disser: «Dei-te um filho», as suas palavras ao mesmo tempo significam: «Este é nosso filho». Contudo, ainda que os dois juntos sejam pais do seu filho, a maternidade da mulher constitui uma «parte» especial deste comum ser progenitor, aliás a parte mais comprometida. O ser progenitor – ainda que seja comum aos dois – realiza-se muito mais na mulher, especialmente no período pré-natal. É sobre a mulher que recai diretamente o «peso» deste comum gerar, que absorve literalmente as energias do seu corpo e da sua alma. É preciso, portanto, que o homem seja plenamente consciente de que contrai, neste seu comum ser progenitores, um débito especial para com a mulher. Nenhum programa de «paridade de direitos» das mulheres e dos homens é válido, se não se tem presente isto de um modo todo essencial.

A maternidade comporta uma comunhão especial com o mistério da vida, que amadurece no seio da mulher: a mãe admira este mistério, com intuição singular «compreende » o que se vai formando dentro de si. A luz do «princípio», a mãe aceita e ama o filho que traz no seio como uma pessoa. Este modo único de contacto com o novo homem que se está formando cria, por sua vez, uma atitude tal para com o homem – não só para com o próprio filho, mas para com o homem em geral – que caracteriza profundamente toda a personalidade da mulher. Considera-se comumente que a mulher, mais do que o homem, seja capaz de atenção à pessoa concreta, e que a maternidade desenvolva ainda mais esta disposição. O homem – mesmo com toda a sua participação no ser pai – encontra-se sempre «fora» do processo da gestação e do nascimento da criança e deve, sob tantos aspetos, aprender da mãe a sua própria «paternidade». Isto – pode-se dizer – faz parte do dinamismo humano normal do ser progenitores, também quando se trata das etapas sucessivas ao nascimento da criança, especialmente no primeiro período. A educação do filho, globalmente entendida, deveria conter em si a dúplice contribuição dos pais: a contribuição materna e paterna. Todavia, a materna é decisiva para as bases de uma nova personalidade humana.

João Paulo II, excerto do n.º 18 da Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem”, sobre a dignidade e a vocação da mulher