Défice educativo

Os números não deixam margem para dúvidas: as estradas de Portugal continuam a ser palco de dramas sangrentos, ceifando vidas numa voragem assustadora. As estradas de melhor perfil e as estradas sem as condições mínimas de segurança. Continuamos a chorar sonhos não realizados, projectos anulados ao nascer…

Explicações podem encontrar-se muitas: as estradas, para aqueles que sempre consideram o Estado culpado; o parque automóvel envelhecido e inseguro, para os que desejariam vender mais; as condições metereológicas, a falta de experiência, para os que não querem que a “culpa morra solteira”…

Todas essas circunstâncias, certamente, agravam a insegurança na circulação rodoviária. Mas os excessos?!… Os excessos: de quem se distrai na correria da vida; de quem não reconhece deveres a par com direitos; de quem tem uma fasquia demasiado baixa em relação aos valores da vida; de quem não estrutura a sua personalidade cívica vertebrada por uma ética social convicta…

As medidas de fiscalização ou coercivas duram o que duram, sem grandes efeitos a longo prazo. Prolongá-las ou agravá-las só assusta nos primeiros dias; condicionam levemente alguns comportamentos, sem deixar marcas de hábitos novos. Se as leis não passam no coração dos cidadãos, não se alteram substancialmente as atitudes.

Esse é, certamente, o problema de fundo. Sem um sentido abrangente do valor da vida, da relação solidária, do bem comum a construir por todos, da necessária articulação de direitos e deveres, do respeito no uso dos bens comuns, dificilmente se forjarão condutores e peões responsáveis.

É uma questão de educação. E de educação básica. A famosa “educação e prevenção rodoviária” só pode completar este alicerce primário de cidadania. A aprendizagem prática da deslocação rodoviária, encarada como um “colete de forças” a tolher a liberdade, não aumentará a segurança.

Enquanto se pensar a educação como o simples despertar das capacidades imanentes em cada indivíduo, negando a realidade objectiva de verdades e valores a adquirir, para moldar as riquezas inerentes a cada um, nem o alargamento dos períodos de segurança, nem o reforço das medidas em função da mesma sortirão efeito.

Continuamos, no nosso país, a pautar muitos projectos educativos: por uma relativização quase absoluta dos valores; por uma crescente facilidade, desprezando a força educativa da exigência; por uma ilusória liberdade que consiste em fazer só o que sabe bem ou apetece, mesmo que isso lese visivelmente alguém ou a comunidade; por uma afronta à excelência… O resultado está à vista! E o futuro será mais plúmbeo, se não se inverterem estas correntes (des)educativas.