Uma semana com notícias, reportagens, entrevistas, clamores e lamentações, sobre um caso recente ocorrido no Porto, trazendo à memória outros dos mesmos ambientes. Um empresário da vida nocturna, quarenta e dois anos, baleado às duas da manhã, junto de uma das suas casas de diversão. Disseram os jornais que ele começara nesta vida como segurança, estava riquíssimo, várias casas deste negócio, automóveis dos mais caros e que até recorria a avião alugado para ver no estrangeiro os jogos do seu clube… Um empresário de sucesso! Um outro do mesmo ramo lamentou o sucedido, e foi dizendo que a morte começou pelos seguranças, já chegou aos empresários, amanhã serão os clientes… “É precisa mais polícia a vigiar estes lugares”, grita-se por aí.
Também se noticiou que “Apenas 12 dos 156 (!) estabelecimentos do Grande Porto têm protecção de empresas de segurança legalizadas”e que, “numa zona da cidade onde há dez mega-espaços de diversão nocturna, só três deles estão legalizados”(!).
Abundam ameaças secretas de seguranças rejeitados, provocam-se desacatos para gerar insegurança no local, agora até se diz que há polícias implicados, porque trabalham ali nas horas de folga, e por aí adiante. A autoridade judicial, essa só actua perante queixa.
Isto é o que se passa e se vai sabendo, sempre que há crime pelo meio. Porém, a degradação, o perigo público e o escândalo não ficam por aqui. Muita gente o sabe e são muitas as vítimas destes ambientes, porque nem só de tiros se morre.
Muitas discotecas, danceterias, bares de alterne e outras casas do género são, também, lugares de venda e consumo de drogas duras, de bebedeiras de caixão à cova, de convite à prostituição e à pouca vergonha, de ocasião de acidentes mortais na estrada, de destruição de locais públicos, de morte de famílias sérias e de vidas jovens. Será que ninguém do governo e da polícia leu a reportagem da revista Sábado (23/29 de Agosto) e tantas coisas que os jornais narraram nestes dias? Vai tudo ficar na mesma? O importante é descobrir quem baleou. Depois? Depois nada ou pouco mais que nada.
O problema é profundo e sério. São lugares, altamente rentáveis, propícios à degradação física, psicológica, moral e social, e que não raro a favorecem. Disto ninguém duvida. Mas estão legalizados, dão dinheiro a muita gente, muitos jovens e menos jovens já não passam sem este atordoamento alienante… Só lá vai quem quer e, não havendo queixas, nem mortes, tudo bem… O que se passa depois é com cada um, já não é com o governo, nem com as polícias… Assim se adormecem responsabilidades públicas!
Entretanto, o cidadão vulgar, se anda atento, vai comparando coisa com coisa, medida com medida, norma com norma, e vê o descontrole disto tudo. Por isto e por tantas outras coisas, como o que se passa no futebol, nas medidas em relação à droga, na corrupção alargada, na insegurança reinante, na podridão moral já aceite por muitos como coisa normal, a degradação parece já não ter limites. Sem queixas, nem crimes de primeira página que cheguem às instâncias europeias, sem escândalos que extravasem fronteiras, com leis para dissuadir, somos como o resto da Europa, não há perigo.
Quando surge um problema grave, logo surgem muitos outros que são causas ou efeitos. Mas, no imediato, há outras preocupações, como se governar não fosse, também, avaliar e prevenir. Agora foi assim no Porto, mas na próxima semana, tudo passou e já não se fala. Os amigos reencontram-se, a polícia muda de giro, instala-se o silêncio que favorece os criminosos, os jornalistas calam-se ou olham para outro lado, se o que se passa não enche páginas, as pessoas esquecem e voltam ao euromilhões, os políticos e os partidos unidimensionais e com baias restritivas, se as coisas não lhes tocam nos interesses, assobiam para o lado e dormem tranquilos.
Assim vai caindo a casa sem alicerces. Quem vier, que junte e arrume os escombros…
