Depois dos louvores, a serenidade necessária

Enterrado o morto, não falta, logo a seguir, enquanto houver quem ouça, alguém que aponte defeitos, faça críticas, mostre contradições, avance profecias. Muitas vezes trata-se de desabafar ressentimentos ou marcar rumo novo para coisas que não foram tão consideradas como se desejava. Um papa, quando morre, não foge a este clima e, por isso, não é de estranhar que tal aconteça em relação a João Paulo II.

Ninguém esteve na praça pública das sete partidas do mundo, como este homem. Os tempos facilitaram a publicidade à sua pessoa, não apenas pelo favor das novas tecnologias, dos transportes à comunicação social, mas, sobretudo, pelo que ele disse, escreveu, lutou e mostrou ao vivo, num mundo ansioso de luz, de verdade, de segurança, de paz, de respeito pelos direitos das pessoas, de amor verdadeiro, de reconhecimento, de uma presença que anime e de bem que toque o coração.

Não foi a curiosidade que moveu as multidões que foram ao seu encontro, nem o turismo que levou a Roma milhões de cidadãos do mundo. Há fenómenos sociais que se explicam mais por moções interiores irresistíveis, expressões não caladas de gratidão ou de esperança, dinamismos misteriosos que dão estímulo à decisão de viver, mesmo que outras forças soprem em sentido adverso.

A Igreja Católica sabe, de há muito, que a sua condição no mundo é de luta e de sofrimento, para dar testemunho da verdade em que acredita e ser sinal de salvação em Jesus Cristo, para cada pessoa e em cada tempo. O seu caminho não se faz cedendo a correntes efémeras como o tempo, ainda que estas se transformem em dogmas inatacáveis, como a modernidade, mal entendida e sem travões. Faz-se: ajudando as pessoas a olhar mais alto e a manter viva e activa a sua dignidade original; dizendo que a liberdade visa sempre o maior bem, seu e dos outros, e por isso tem limites; defendendo instituições que a sociedade não pode dispensar, como a família; mostrando aos jovens que uma vida séria necessita de projectos sérios; promovendo valores intocáveis de sempre, como a vida, a verdade, a liberdade, a justiça, a paz; dando a mão aos excluídos desta sociedade fria e consumista, só com interesses de ter e de gozar; apontando caminhos de responsabilidade, porque a vida não é só espectáculo…

Há e haverá sempre na vida das pessoas e da Igreja aspectos novos a pedir atenção. As omissões podem ser fruto de demoras admissíveis, silêncios explicáveis, prioridades programadas. Acontece assim em tudo. Quem só olha o seu canteiro, dá-lhe a dimensão do mundo. Quem só vê o seu projecto, esquece que há outros igualmente válidos. Quem só considera a sua urgência, julga-se o centro da vida da sociedade.

Sem uma fé esclarecida e comprometida, a leitura da missão da Igreja e dos seus responsáveis não é possível. A visão cristã é uma visão de amor, de estímulo ao bem, de compreensão de falhas, de não condenar ou canonizar, conforme os ressentimentos ou as simpatias. A Igreja preocupa-se mais com o dever e menos com o agradar.

O novo papa, também ele, quem quer que seja ou de onde quer que venha, terá virtudes, limitações, experiências próprias. Igual e diferente, mas, por certo, a mesma consciência da missão da Igreja e a mesma vontade de fidelidade a Deus e às pessoas.

A crise da Igreja, que muitos apregoam e profetizam, com alguma satisfação e contornos lidos a seu jeito, nunca será, mesmo onde existe, crise de morte. Será sempre estímulo à renovação, pelo Espírito que a anima e conforta. Está aqui a sua certeza, a sua força e a sua decisão de recomeçar em cada dia.