Editorial 1 – O desafio não é de agora. Para além dos chefes e dos soldados, um dos malfeitores que tinham sido crucificados com Jesus insultava-o dizendo: “Não és Tu o Messias? Salva-te a Ti mesmo e a nós também!” (Cf. Lc.23,35-39). Os olhos do interesse imediato, a busca do sensacionalismo, o efeito sedutor, roubam-nos a lucidez de olhar em profundidade, de procurar o sentido, de ler os sinais de Deus.
2 – Oscilamos entre a admiração e o “conselho” ao Santo Padre. Deixa-nos sem palavras a surpresa da sua resistência, a sua capacidade de recuperação, a inesgotável força interior que o envolve. Testemunho do valor do sofrimento, da entrega até ao fim, da preciosidade que é a vida!… Referência profética indiscutível, muito para além das fronteiras da Igreja católica, monumento de paixão e doação pela Humanidade, nas causas mais nobres!
3 – Mergulhados numa sociedade de aparência e de eficácia, muitos se têm atrevido a alvitrar o “conselho” de que seria melhor abdicar: dá uma imagem decrépita da Igreja; fica a barca de Pedro ao sabor de timoneiros misteriosos, ambíguos, quem sabe se não oportunistas; deixa resvalar o futuro da Igreja para situações imprevisíveis… Adiando a sua sucessão, pode até comprometer a possibilidade de eleição daquele (s) que os sabidos já designaram para esta missão!
4 – Quantas vezes, como no de Jesus Cristo, não terão soado no coração do Papa estas invectivas: “Desce da cruz”! A mediatização da vida do Santo Padre tanto consolida a admiração pela sua heroicidade de entrega, em perfeita kenose (pequenez, fragilidade, humilhação), como difunde, quantas vezes intencionalmente, o conselho, o desafio, para descer da cruz, para abandonar o ministério de Pedro.
5 – Curiosamente, é no momento do supremo “fracasso” que Jesus é reconhecido como o Filho de Deus. Ao proclamar “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc.15,30; cf. Mt.27,54), o centurião romano, se não afirma conscientemente a filiação divina de Jesus Cristo, reconhece pelo menos o carácter sobre-humano da Sua pessoa. O mistério da Igreja não se esgota na sua visibilidade, nem das instituições, nem das pessoas, porque é o Espírito que a conduz!
A história da Humanidade consagrará Karol Woitilla como aquele que, convicta, corajosa e serenamente se deu até ao fim, como a vela que se consome no altar. O seu testemunho marcará os tempos como o desafio da fidelidade!
Em final de Quaresma, no meio da civilização da comodidade, teremos, seguramente, uma consciência a examinar e conversão a fazer, para não descermos da cruz da vida, do dever, mas antes a vivermos, saborosamente, até ao fim.
