A Eucaristia no meu coração A Eucaristia está no meu coração, desde a minha mais tenra idade, como precioso dom de Deus, mediado pela família profundamente cristã onde nasci, por catequistas simples mas cheias de fé, por um pároco, cuja piedade eucarística me impressionava vivamente, e pelo ambiente da minha aldeia natal, onde se respirava devoção ao Santíssimo Sacramento.
Quis, depois, o Senhor chamar-me à vida religiosa e ao sacerdócio na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, mais conhecidos por Dehonianos, cujo carisma e espiritualidade são marcadamente eucarísticos. De facto, o Pe. Dehon quis que os seus religiosos unissem de forma explícita a sua vida religiosa e apostólica à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens, que tem na Eucaristia o seu memorial. Por isso, a celebração eucarística é «o grande acto do dia» (Directório Espiritual, n. 128), prolongado na adoração eucarística «diária, na adoração reparadora oficial, que fazemos em nome da Igreja, para consolar Nosso Senhor e para apressar o Reino do Sagrado Coração de Jesus nas almas e nas nações» (Directório Espiritual, n. 284).
Chamados a aderir ao amor de Deus, magnificamente expresso no Lado aberto e no Coração trespassado do Salvador, os dehonianos querem corresponder-lhe com uma vida de íntima união ao seu Coração e com uma generosa entrega para instaurar o seu Reino nas almas e na sociedade (cf. Constituições n. 5). Esta adesão concentra-se no sacrifício eucarístico, para transformar toda a vida numa missa permanente (Leão Dehon, Couronnes d’Amour, III, p. 199). Por outras palavras: a Eucaristia, memorial da oblação com que Jesus Cristo reparou o pecado do homem, dando glória ao Pai e salvando o próprio homem, é também fonte de inspiração, que nos leva à oblação de nós mesmos, e de tudo quanto temos e fazemos, para nos tornarmos, com e como Cristo, eucaristia, para glória e alegria de Deus e para que toda a humanidade e a criação inteira, libertas do pecado, se tornem, também elas, eucaristia, oblação santa e agradável. Por isso, a Eucaristia celebrada, comungada, adorada, é mais do que simples rito ou acto devocional. É contem-plação que leva à acção: «reflecte-se em tudo o que somos e vivemos» (Constituições, n. 81), «lança-nos incessantemente pelos caminhos do mundo ao serviço do Evangelho» (Constituições, n. 82), para darmos o nosso humilde contributo em vista da instauração do reino da justiça e da caridade cristã no mundo (cf. Leão Dehon, Souvenirs XI e Constituições, n. 32).
É este modo de ver, de celebrar, de comungar e de adorar a Eucaristia que me tem animado ao longo de quarenta e dois anos de vida religiosa, oito dos quais passados nas missões, ao serviço da evangelização e da promoção dos povos de Moçambique, e de 26 anos de sacerdócio, ocupados na formação de religiosos e sacerdotes, e em permanente disponibilidade para o que me vai sendo pedido na Congregação e nas dioceses por onde tenho passado.
É assim que procuro levar a Eucaristia no coração… para a tornar vida. Sei, de facto, que, no fim de cada eucaristia, o Senhor me pode dizer, a mim e a todos os cristãos, o que disse a certo fariseu, depois de lhe contar a parábola do Bom samaritano: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). A Eucaristia é memorial de Cristo que Se fez corpo entregue e sangue derramado para glória e alegria do Pai, e para salvação dos homens. E sei que, para a celebrar-mos com verdade, havemos de procurar fazer o mesmo que Ele fez, dispondo-nos a servir, com amor e humildade, mesmo no sofrimento e até à morte, oferecendo-nos e imolando-nos, fazendo-nos eucaristia, oferenda santa e agradável a Deus, pão bom para os outros.
Ser cristão, ser religioso, ser padre, ser missionário, são todos dons de Deus que jamais compreenderemos suficientemente neste mundo. E é fazendo-nos também dom, para Deus e para os outros, que os viveremos adequada-mente, alcançando a santidade. A Eucaristia, de facto, é, não só a fonte, mas também o modelo e a forma da santidade a que todos somos chamados.
Fernando Fonseca, scj (Dehoniano)
