Despirmo-nos de paixões!

O conflito “está prisioneiro de muitas paixões” – afirma-o um político de qualidade acima da média, com justificada credibilidade, referindo-se ao clima que se vive presentemente no mundo escolar.

A educação é o terreno apetecível de quantos pretendam desmantelar a vida de um país, daqueles que desejem hipotecar o seu futuro, impondo um regime monolítico. Instalar e genera-lizar aí o conflito é o caminho mais fácil para degradar esse mundo indispensável à pujança de vida, à liberdade de um povo.

Se pode ser temerário o juízo sobre as intenções iniciais de governos, sindicatos, grupos de alunos, de pais ou de docentes, a persistência em cerrar fileiras e abrir brechas, a teimosia em afirmar unilateralmente posições, autoriza-nos a pensar que se não ama o futuro das gerações, nem sequer o próprio estatuto. Aí, sim, estão patentes paixões – ideológicas, de poder, corporativistas, emocionais… – que nada têm a ver com um projecto e processo educativo que construa o devir dos indivíduos e da sociedade.

É evidente que a educação ultrapassa a escola, os docentes, os alunos, os governos, as autarquias, as próprias famílias dos alunos. É um “desígnio nacional” que a todos envolve, que depende de todos e em todos se reflecte, porque afecta toda a vida e a vida de todos. Mas não é menos evidente que a escola – núcleo relevante desse processo – tem nele uma função insubstituível.

Uma escola plural, comunidades educativas dialogantes, desapaixonadas e felizes, pais envolvidos, comunidades locais intervenientes, valem – de longe! – muito mais que “compromissos e documentos” assinados, porque permanentemente ajustam “os instrumentos adequados” às transformações verificadas.

A educação precisa de regras, de leis, de propostas de conteúdos e competências. Mas não se faz por decreto, muito menos por programas eleitorais. O papel regulador do Estado é essencialmente o de aferir as circunstâncias reais da vida do país, propor caminhos educativos essenciais, sustentar projectos alternativos, motivar todos os agentes para a iniciativa e compromisso. Não é substituir-se a tudo e a todos!

Na educação, as “negociações” não podem avançar pela dialéctica dos conflitos. Quando os “parceiros”, por medidas legislativas ou manifestações, pretendem sentar-se à mesa com posições reforçadas, para alcançarem vantagens sobre os “adversários”, a sobrevivência das tréguas está comprometida. Aliás, em educação não pode pensar-se em tréguas ou em guerra. Só resulta a cooperação. Todavia, essa reclama discernimento, humildade, acolhimento da diversidade, conselho dos experientes e “sábios”.

Estamos a tempo de instaurar um clima de confiança e empenhamento de todos. Uma condição basta: despirmo-nos de paixões!