Tinha o papel branco. Para escrever mais uma daquelas pequenas histórias da manhã. O que hei-de dizer? Já nada de novo se passa sob a roda do sol. E, no entanto, não há duas folhas iguais, não há duas vidas iguais no mundo. Mas como contar, de forma nova, o que é aparentemente tão igual?
O empregado pergunta-me o que desejo. – Será possível? O Sousa, que era proprietário de um grande café e confeitaria, aqui, de bandeja na mão, a servir um modesto café? “É verdade! – diz-me ele – Cá estou a começar outra vez a vida, do princípio”.
Está um casal na mesa ao lado. Vêm da aldeia e, pela conversa, presumo que vão emigrar. Fazem planos. É a vida que recomeça agora, para eles também.
E aí está como, num instante, Deus pegou na minha pena e escreveu no papel branco um recado para vos dizer: Todos os dias a vida começa. E nem sempre começa no ponto onde se deixou no dia anterior. Às vezes, é preciso apagar o que está escrito e recomeçar desde o princípio. Não importa: Deus está sempre no começo.
in Paisagens com Deus ao Fundo
(Poema retirado do Roadbook da Caminhada de Quaresma/Páscoa, do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil)
