Deus, fé e religião

Deus escreveu dois livros?

Uma ideia perdurou durante séculos: Deus escreveu dois livros, a Bíblia e o ‘livro da Natureza’. Resultava da convicção de que a Bíblia era uma espécie de ditado de Deus ao ouvido dos escritores sagrados.

Com o desenvolvimento dos estudos bíblicos, sobretudo por influência de algumas ciências literárias e históricas, de investigação de documentos antigos e outras, percebeu-se que os livros bíblicos têm Deus como autor, em simultâneo com os escritores sagrados que os compuseram com toda a carga das suas circunstâncias culturais, filosóficas, literárias e históricas.

A Criação é, na verdade, o primeiro livro aberto da manifestação de Deus; por isso, lhe chama-mos a Revelação Natural. Assim fala sobre este primeiro ‘livro’ o documento sobre a Revelação (do Vaticano II): “Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cfr. Jo. 1,3) oferece aos homens um testemunho perene de si mesmo na criação (cfr.Rom. 1,19-20)” – DV 3. Portanto, observando a maravilha do Universo, a pessoa humana encontra sinais do seu Autor. Pode, pela contemplação da Natureza, elevar-se às alturas do Criador.

A proximidade de Deus à humanidade torna-se, entretanto, patente de outro modo muito mais explícito. “Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade… Em virtude desta revelação, Deus invisível (Cfr. Col. 1,15; 1 Tm. 1,17) fala aos homens como a amigos (Cfr. Êx. 33,11; Jo. 15,14-15) e convive com eles (Cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele” – DV 2. Esta é a Revelação Sobrenatural.

Ou seja, Deus entretece a história da humanidade com a Sua presença, por acções e palavras, por pessoas e instituições, intimamente relacionadas entre si, culminando com a presença pessoal entre nós, pela pessoa do Verbo eterno de Deus, Jesus Cristo, que Se torna uma pessoa da nossa história. Esses acontecimentos e palavras, reconhecidos e proclamados como salvíficos, tornam-se Palavra escrita na Bíblia, pela inspiração do Espírito Santo a pessoas escolhidas, que os registam com as suas próprias qualidades humanas. Esse é o segundo livro de Deus.

O “sensus fidelium” é a opinião pública na Igreja?

O Espírito Santo foi concedido a toda a Igreja. Os fiéis recebem este fluxo do Espírito, para acolher, meditar e viver a Palavra que vem da boca de Deus. Essa palavra tem a legítima interpretação na comunhão da Igreja. E o papel de discernimento cabe ao Magistério. Certo é que a intuição espiritual do Povo de Deus pode tornar-se um sinal claro da percepção da verdade da fé, que o Magistério confirmará. Por exemplo: a plena convicção do Povo cristão de que a Virgem Maria foi glorificada sem sofrer a corrupção do túmulo deu ao Papa reforço das razões para proclamar o dogma da Assunção de Nossa Senhora.

Assim fala o Vaticano II: “Progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (Cfr. Lc. 2,19.51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais” – DV 8. Mas isto é bem mais profundo do que uma opinião pública condicionada ou manipulada pelos meios de comunicação social.

Acreditar é aceitar o absurdo?

Parece que se atribui injustamente a Tertuliano esta sentença: “Credo, quia absurdum”, isto é, “creio, porque é absurdo”.

Nada mais errado. A Fé, na verdade, não é a aceitação do absurdo. A “certeza das coisas que se não vêem” é a confiança em realidades que não se vêem fisicamente, mas cujos efeitos são indiscutíveis. O amor, por exemplo, não se vê; mas percebem-se claramente os seus efeitos. Como da alegria, da tristeza, de outras realidades.

A Fé não é fruto de raciocínios. É um dom de Deus, é a moção do Espírito, que nos predispõe o coração para acolher a Palavra e nos estimula a dizer sim à interpelação de Deus. Mas, entretanto, o exercício da nossa inteligência, a decisão da nossa vontade, o nosso afecto, consideram não apenas razoáveis mas boas as propostas e desafios que a interpelação de Deus nos faz. E aderimos em liberdade.

“A Deus que revela é devida a ‘obediência da fé’ (Rm.16,26; cfr. Rm. 1,5; 2 Cor. 10,5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo ‘a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade’ e prestando voluntário assentimento à Sua revelação” – DV 5.

O estudo, a busca inteligente e persistente, o confronto com as ciências naturais e humanas, a honestidade e a humildade levar-nos-ão progressivamente a descobrir que acolher a ‘provocação’ de Deus não é diminuir as nossas capacidades humanas; antes lhes abre outros horizontes.

O Evangelho pode acrescentar-se?

Jesus Cristo é a Palavra definitiva de Deus à Humanidade. “Por isso, vê-lo a Ele é ver o Pai (Cfr. Jo. 14,9). Com toda a Sua presença a manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.

Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (Cfr. 1 Tm. 6,14; Tit. 2,13)” – DV 4.

Se Jesus é o rosto humano de Deus, a Sua presença real à nossa dimensão, está tudo dito da parte de Deus. Os apóstolos e os escritores sagrados do Novo Testamento apenas explicitam a apresentação da Palavra eterna de Deus incarnada.

Entretanto, a nossa compreensão dessa Verdade inesgotável é parcelar, progressiva. O acolhimento, a vivência e transmissão da Revelação, da Tradição apostólica, essas sim, progridem na Igreja, sob a acção do Espírito Santo, quer pela reflexão, estudo e compreensão dos crentes, quer da percepção íntima das realidades espirituais, quer pelo estudo da Teologia, quer pelo serviço do Magistério (Cfr. DV 8), já que a Mensagem definitiva é para todos os tempos e lugares. E as circunstâncias novas dos tempos e lugares ‘provocam’ novas e mais profundas compreensões do Evangelho permanente.

Todas as religiões são iguais?

As religiões são a expressão orgânica, socializada, porque o homem é um ser social, dos seus esforços de encontrar a Divindade. Algumas delas apresentam-se com a pretensão de cruzarem estes ‘caminhos dos homens’ com os ‘caminhos de Deus’, isto é: apresentam-se como tendo no seu patrimó-nio a iniciativa de Deus de vir ao encontro desta busca por parte do homem.

A Fé católica assenta na certeza de que Deus, na Sua imensa bondade, Se autocomunica na história dos homens, por acções e palavras, intimamente ligadas entre si, chamando a Humanidade, pela mediação de um povo – o povo hebreu – e, definitivamente pela presença do Seu Filho, Jesus Cristo, entre nós, a constituir o novo Povo de Deus, com quem vive em estreita comunhão.

“Todos os homens são chamados a esta unidade católica do Povo de Deus, a qual anuncia e promove a paz universal; a ela pertencem, de vários modos, ou a ela se ordenam, quer os católicos, quer os outros que acreditam em Cristo, quer, finalmente, todos os homens em geral, pela graça de Deus chamados à salvação” – LG 13.

Na pessoa de Jesus Cristo, encontra-se a excelência da religião. Mas as ‘sementes do Verbo’ encontram-se no coração de todo o homem que vem a este mundo, porque Ele veio exactamente para isso: para iluminar todo o homem que vem a este mundo.

Na medida em que, na busca da verdade e do bem, as religiões procurem com honestidade e humildade, o caminho permanente para o Verbo de Deus, têm sementes de salvação, as quais, pela fecundação do Evangelho, desabrocharão na verdadeira Religião.

Não são todas iguais, portanto. Mas podem ter todos elementos salvíficos, que, vividos com rectidão, colocam as pessoas no caminho da salvação. Sempre considerando que determinados líderes carismáticos poderão perverter ou sublimar essas sementes do Verbo.

Pereira da Silva

Página da responsabilidade do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.ª quarta-feira de cada mês.