Diálogo indispensável e difícil

Questões Sociais Vivemos numa sociedade profundamente dividida; na economia, na política, nas relações sociais, na cultura, no ensino… na própria família e na religião. A recente greve geral constituíu uma expressão forte das nossas divisões; perante elas, torna-se indispensável o diálogo em toda a parte, sob pena de nos perdermos nas nossas rupturas e tornarmos inviável a democracia.

Sabe-se que o diálogo é extremamente difícil. Veritica-se, por toda a parte, a tendência para o extremismo de posições. Realçam-se; particularmente, os confrontos entre os «bons» e os «maus», entre «superiores e inferiores», entre «esquerda» e «direita», entre o «trabalho» e o «capital»…Devido a tais extremismos e a outras dificuldades, muita gente receia o diálogo ou considera-o inútil. O Governo e as entidades patronais têm, frequentemente, a sensação de que as reivindicações de diálogo têm sempre subjacente a exigência de aumento de despesa superior às suas possibilidades. Por seu turno, os reivindicadores de diálogo alimentam permanentemente a ideia de que o Governo e as entidades patronais o recusam sem motivo atendível.

Acha-se bastante difundida a convicção de que, no nosso país, não existe a tradição de diálogo, e que será necessário instituí-lo a partir do zero. Isso é verdade, se nos limitarmos ao diálogo formal, com reuniões e suas formalidades. Mas é menos verdadeiro se considerarmos o diálogo informal, que se observa quase por toda a parte, embora marcado, não raro, pelo paternalismo e pelo autoritarismo. Ele verifica-se nas famílias, nos locais de trabalho, no convívio, no associativismo… Consiste nas relações do dia-a-dia e não recorre muito a palavras; pode traduzir-se num olhar, num gesto, na partilha, na premência da realidade e dos problemas a resolver…Nele as pessoas podem unir-se, mesmo sem reuniões.

As reuniões tornaram-se necessárias, para a clarificação do diálogo e para a formalização exigida por razões de ordem jurídica, política ou outra. Mal avisados andaremos, porém, se confundirmos a prática de reuniões com a «reunite». A «reunite», ou doença das reuniões, traduz-se no abuso destas, na sua demora, no excesso de palavras, na vacuidade, na falta de eficácia. Frequentemente a «reunite» constitui um obstáculo ao diálogo e redunda em opressão (cf. Paulo da Trindade Ferreira, «Reuniões de Trabalho (…)», Editorial Presença, Lisboa, 2005).