Questões Sociais A Conferência Episcopal Portuguesa, na sua assembleia plenária de novembro, chamou a atenção – uma vez mais – para a importância do diálogo na superação da crise em que nos encontramos (cf., a propósito, o artigo aqui publicado em 7 de novembro); na verdade, ou dialogamos, na procura dos entendimentos possíveis, ou nos afundamos, em suicídio coletivo, lutando fanaticamente uns contra os outros.
Por razões várias, a nossa democracia não se caracteriza, desde o século XIX, pelo diálogo na procura de consensos, mas sim pela oposição sistemática e permanente; qualquer governo é, entre nós, uma entidade a abater, sejam quais forem as consequências desse abate. Normalmente, é afirmada a predisposição para o diálogo, e cada contendor afirma que o outro – adversário ou inimigo – é que não quer dialogar; mas, por via de regra, cada um entende que tem o direito de impor condições ao outro para que o diálogo seja sério. Com esta postura, rejeita-se a própria essência do diálogo; rejeita-se, à partida, a abertura mútua para o entendimento. Aliás, a análise e procura de tais condições fazem parte integrante do processo de diálogo, quando ele é saudável.
No momento atual, vive-se intensamente a dialética neutralizante do diálogo, entre partidos, parceiros sociais e governo. Não existem indícios de que o cenário se altere, embora devamos ter em conta algumas realidades bem positivas que vão acontecendo no dia a dia; refiro-me, em especial, ao que acontece nas comissões e grupos de trabalho da Assembleia da República, na negociação coletiva e nos bastidores da política mediatizada; existe uma alta probabilidade de, para lá da linguagem bélica mediatizada, se verifiquem esforços de aproximação que talvez deem alguns frutos mais tarde. Corremos o risco, no entanto, de isso acontecer tarde demais, quando a situação se tornar ingovernável.
