Dias de reafirmar a esperança

Nos próximos dias, os cemitérios, esses “lugares do sono”, segundo a etimologia cristã da palavra, enchem-se de pessoas. A morte é uma certeza, ainda que mal preparada, e não tem nome. Já a vida tem a garantia de uma pessoa: Jesus Cristo.

No dia 1 de Novembro, comemoram-se todos os santos, isto é, os que estão junto de Deus, reconhecidos pela Igreja ou anónimos (a grande maioria). O dia seguinte é consagrado, desde o séc. XI, à memória dos fiéis defuntos. “Quer os fiéis que vivem na glória, quer os que vivem na purificação, preparando-se para a visão de Deus, são todos membros de Cristo pelo Baptismo. Continuam todos unidos a nós. A Igreja peregrina não podia, por isso, ao celebrar a Igreja da glória, esquecer a Igreja que se purifica no Purgatório”, lê-se no sítio do Secretariado Nacional de Liturgia, que adianta que “o Dia de Fiéis Defuntos não é dia de luto e tristeza. É dia de mais íntima comunhão com aqueles que «não perdemos, porque simplesmente os mandámos à frente» (S. Cipriano). É dia de esperança, porque sabemos que os nossos irmãos ressurgirão em Cristo para uma vida nova”.

Dois dias para afirmar a morte e celebrar a vida, quando o tema “morte”, principalmente se se trata da “própria morte” não é, de maneira nenhuma popular. “Houve um tempo em que a morte nos era próxima, fazia parte da sociedade e da família e, embora não fosse uma boa amiga, não lhe desviávamos os olhos à passagem. Harmonizávamo-nos com os ritmos da natureza e no horizonte tudo parecia presença dessa imensa pequena palavra: Deus. Era-nos, então, mais fácil encontrar paz na ideia de morrer. Víamo-la como natural, embora tão misteriosa quanto a ideia de nascer. Hoje, escondemos a morte; só nos ecrãs é que a expomos sem pudor. Mas este excesso contínuo de imagens provoca exactamente o efeito de desgaste e a indiferença em relação à morte e em relação à vida”, afirma um folheto que a Diocese do Porto vai distribuir à entrada dos cemitérios nos próximos dias. Intitulada “Morreste-me”, a brochura de 16 páginas não contém data nem autores, mas foi escrita por padres e teólogos, sob coordenação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura – Porto, para uma reflexão em qualquer época do ano sobre a morte própria e do outro.

A morte é abafada nas conversas. Afastada para os hospitais. Temida ou desejada sem real aceitação. “Por isso, estamos sempre a surpreender-nos com aquilo que, no fundo, estávamos à espera. Num instante, anunciada ou de surpresa trágica, ela aí está naqueles que nos morrem. E, anunciada ou de surpresa trágica, chegará a nossa vez”.

Perante ela inelutável realidade (o grande teólogo Karl Rahner falava em “prolixitas mortis”, presença da morte em tudo o que fazemos, enquanto o filósofo Heidegger, repescando uma expressão de S. Gregório Magno, dizia que o ser humano é o “ser para a morte”), “não só a espiritualidade, mas também a psicologia impõe-nos como tarefa [pelo menos] na velhice a preparação para a morte”, escreve o monge Anselm Grün em “A sublime arte de envelhecer” (ed. Paulinas), sugerindo mesmo um “treino para a morte”. “Vivemos e morremos não só para nós, mas também para os outros. Na morte, torna-se evidente que aquilo que salva a nossa vida é o amor. Quando completamos o nosso amor na morte, a nossa morte é redimida, libertando, depois, algo para os outros. O medo desaparece e sentir-nos-emos ligados de uma forma diferente: connosco e com Deus. É aí que reside o segredo da redenção através da morte de Jesus na cruz”.

Na mesma linha segue o folheto distribuído na diocese vizinha: “O amor é a ponte que une o ínfimo ao infinito. A vida não nos é roubada na morte, porque ela nunca foi nossa, nunca possuímos a vida como bem pessoal que conquistamos por direito. Foi-nos dada para a restituirmos, para a darmos (…). Lidamos mais com as palavras gastas, mas há palavras que são faróis de vida. A esperança leva dentro a confiança da Fé. (…) Mais do que fim, será princípio, em comunhão com o Amor inteiro, com aquele mais que nos faltava quando, por aqui, fomos felizes. A nossa confiança tem nome de ressurreição e garantia de pessoa: Jesus Cristo”.

J.P.F.