Os católicos da Europa ocidental nunca souberam muito dos seus irmãos das Igrejas do Oriente. Deles, porém, temos exemplos esclarecedores de uma fé militante, de uma riqueza teológica, de uma espiritualidade profunda, de uma capacidade de resistência extraordinária. Dos países de Leste, dominados pelo comunismo, a que muitos cristãos separados, hierarcas e fiéis se acobertaram e aconchegaram, chegaram-nos exemplos maravilhosos de fé, vivida em regime de clandestinidade e de perseguição.
As Igrejas Católicas orientais em nada dissentiram da verdade revelada e da unidade com o Papa, mantendo fidelidade à doutrina e à comunhão com a Igreja universal. Comunhão e unidade foram realidade de ontem e de hoje. As diferenças com a Igreja Latina existem nos ritos litúrgicos, nas tradições eclesiásticas, na disciplina de vida cristã. Como o decreto conciliar anota, tudo isto foi sempre respeitado pelos Papas, dada a antiguidade das Igrejas orientais, muitas delas dos tempos apostólicos, e a tradição cristã de que foram grandes testemunhas, tanto bispos e presbíteros, como fiéis. O desejo do Vaticano II é de que estas Igrejas particulares “floresçam e cresçam” com renovado vigor, e conservem íntegro o seu valioso património espiritual. Elas exprimem a universalidade da Igreja em contextos diferentes entre si e com os do ocidente. São regidas por um Código de Direito próprio, a sua vida pastoral está muito ligada aos sínodos, que não só propõem ao Papa os bispos que escolheram para as servir, mas orientam a disciplina concreta que as governa.
Na Igreja Oriental, os que vão ser ordenados presbíteros podem receber livremente o matrimónio, preparado sobre a orientação do próprio bispo. Em caso de subsistirem no mesmo território igrejas católicas de rito oriental e de rito latino, os padres de um e de outro rito podem celebrar os sacramentos, nomeadamente a reconciliação em favor de todos, sem limites especiais para os crentes de uma e de outra tradição. O Concílio indica normas de convivência da Igreja Católica oriental com os cristãos das igrejas separadas, ditos ortodoxos. Trata-se de um problema nem sempre fácil, que tem por detrás muito sofrimento e fortes tensões, sobretudo no período dos governos comunistas. Assim na Rússia, na Ucrânia e nas outras repúblicas da União Soviética, bem como na Roménia, Bulgária, Hungria, Checoslováquia, Jugoslávia…
O governo comunista entregara muitos templos, expropriados aos católicos, à Igreja ortodoxa separada de Roma, que não os necessitava nem usava. Muitos deles eram catedrais e igrejas paroquiais. Como os católicos, então chamados “uniatas”, pela sua ligação a Pedro, eram rejeitados e perseguidos pelos ortodoxos, ao terem liberdade de culto, já não tinham os seus templos. Celebravam, então, a Eucaristia, ao ar livre e em climas inóspitos, ou em velhos barracões, quando, ali ao lado, permaneciam fechadas as suas igrejas e catedrais, agora na posse dos ortodoxos. Na Rússia, viveu-se uma situação agravada, logo que se reconheceu a liberdade de culto. Muitos católicos, no tempo da perseguição participavam no culto das igrejas ortodoxas oficiais. Uma vez em liberdade e saídos da clandestinidade, pediram ao Papa que criasse dioceses para os apoiar e para exprimirem a sua eclesialidade. A hierarquia ortodoxa não gostou e cortou todo o diálogo e relação com Roma. O caso da Grécia é outro exemplo grave, dado que a Igreja Ortodoxa, religião oficial do país, conseguiu leis que votavam ao ostracismo os católicos. Aceitavam, porém, o apoio da Igreja de Roma aos seus estudantes nas universidades, os quais, ao regressarem ao país, atacavam, com maior virulência, o Papa e a Igreja Católica. Um apedrejamento a quem os socorrera…
Hoje, os cristãos ortodoxos estão espalhados por Portugal, e é normalmente a Igreja Católica que os acolhe, os respeita, os apoia e lhes proporciona lugares de culto e de convívio. É o espírito do Concílio em ação. Os católicos orientais têm entre nós os seus párocos apoiados pelas dioceses e lugares de culto cedidos para as suas celebrações.
A Igreja Católica oriental é muito rica, na sua doutrina e espiritualidade, sobretudo em relação à teologia do Espírito Santo e de Maria, Mãe de Deus. Também, agora, se sente nela a influência da secularização. O Concílio, consciente da riqueza das suas raízes históricas e da sua vivência evangélica, recomenda que, por um claro testemunho fé, ajude as iniciativas de unidade com os não católicos.
Quando a dominante das relações fraternas entre as Igrejas católicas do Oriente e do Ocidente for de “permuta de dons”, como pediu João Paulo II no I Sínodo dos Bispos da Europa, em 1991, também, na Igreja Latina, teremos algo a receber da Igreja Católica do Oriente, rica pelos seus muitos ritos e expressões eclesiais.
