Diga-se a verdade e haja gratidão!…

Há dias assisti à bênção e à inauguração das novas instalações de um Centro Social, fundado por iniciativa de uma paróquia e dirigido pelo respectivo pároco; trata-se, portanto, de uma instituição da Igreja Católica. O acto teve a presença do Bispo da Diocese, do pároco e de algumas dezenas de pessoas; estiveram também o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, o Governador Civil, os presidentes das autarquias locais, o responsável pelos serviços do Instituto da Segurança Social em Aveiro, além de outras individualidades. Foi um dia de festa, a que deram colorido os utentes, tanto as crianças como os idosos.

A Eucaristia, que precedeu a inauguração, foi celebrada numa das salas, com participação festiva de todos. No programa do dia, incluiu-se uma sessão pública, em que falaram o pároco (na qualidade de presidente da direcção), o Bispo diocesano e o ministro.

O pároco, depois de agradecer a presença das autoridades, evocou os benfeitores do Centro Social Paroquial; referiu o casal que legou a sua própria habitação e a propriedade anexa à Obra da Rua; disse que esta, por sua vez, cedeu à Diocese o imóvel urbano e rústico, para fins sócio-caritativos; aludiu à generosidade da mesma Diocese que pôs o imóvel à disposição do Centro; rememorou todos os que participaram e participam nesta instituição. Afirmou ainda, com projecção de gráficos, que a importância de setenta e dois por cento do dinheiro para custear a construção resultou de donativos de várias empresas da região e de muitas pessoas amigas, sendo o restante proveniente de comparticipações do Estado e dos donativos de autarquias. O Bispo, que já tinha falado durante a Eucaristia, aproveitou a ocasião para se congratular com a comunidade cristã e com tantos e tantas que aderiram aos responsáveis da direcção, que, com dedicação, ousadia e competência, concretizaram o sonho do novo edifício. O ministro também falou, como lhe competia. Referiu a política do Governo sobre as iniciativas de finalidade social; lembrou que o que estava a inaugurar-se era resultado do interesse do Governo, das autarquias e da própria instituição (sic).

Olhando para os números, o leitor concluirá que a ordem do valor das comparticipações é outra. Mais ainda: – Por que motivo o representante do Governo não disse publicamente que o Centro Social, por ser de uma Paróquia, é da Igreja Católica e é orientado pelo responsável da comunidade católica local? Haverá receio de os responsáveis políticos se renderem à evidência? Julgo que não podem ter medo e, com coerência, tenham coragem de dizer toda a verdade. O povo agradece-lhes.

A propósito, transcrevo aqui as palavras que D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa, dirigiu especialmente aos seus sacerdotes durante uma celebração litúrgica na Sé, em 27 de Março de 1975, numa altura em que se denegria a acção da Igreja, acusando-a de nada ter feito pelos necessitados: – “A consciência viva da nossa missão situa-nos, constantemente, no meio do Povo de Deus e dentro da sociedade humana à qual pertencemos. Não temos horas para servir. Saímos do povo e sempre partilhamos a sorte do povo. Conhecemos as carências e necessidades que ele experimenta. […] Quando vimos o povo ignorante e sem cultura, abrimos escolas e fizemo-nos mestres de letras; quando o povo não tinha infantários, nem asilos, nem hospitais, fomos nós os promotores e dinamizadores das primeiras iniciativas deste género; quando o povo carecia de lugares de reunião e de convívio, abrimos salas paroquiais e outros espaços de encontro e de recreio; quando o povo precisava de cuidados higiénicos e de promoção humana, erguemos centros sociais e oferecemos habitação condigna a muitos que a não tinham. Quem mais do que vós, padres da cidade e da aldeia, serviu o povo e esteve com o povo? E convosco tantos e tantos cristãos.”

Na sociedade de que fazem parte, os cristãos coerentes procurarão amar a Deus, servindo os irmãos, sobretudo os mais necessitados… tanto individualmente como em associações e instituições por eles criadas e dinamizadas. É esta uma das obrigações permanentes da Igreja.

J.G.