Depois de 11 anos no Alentejo, Pe José Carlos deixou o Seminário de Évora para dirigir o Seminário de Malange, em Angola.
Pe José Carlos não desmente a ansiedade que sente. A poucos dias da partida para Angola (a ser efectuada durante o dia de hoje), ainda não tem o visto que há meses foi pedido. O ano escolar angolano começa em Fevereiro; e há muito a fazer para que possa arrancar dentro da normalidade.
Depois de 11 anos no Seminário Maior de Évora, Pe José Carlos inicia a “aventura africana”. Vai dirigir o Seminário de Malange, que acolhe alunos do décimo ano de escolaridade ao segundo do curso superior. Quantos? O Pe José Carlos ainda não sabe ao certo, mas são certamente na ordem das centenas. “A situação em Angola será como a de Portugal há 50 anos. Há muita gente nos anos iniciais, mas, depois, poucos chegam ao fim. Pelo meio, ficam muitos jovens com uma formação humana, cultural, cristã – o que é fundamental”, afirma. E acrescenta: “Não tenho expectativas formadas. É um trabalho necessário na Igreja. Trata-se de um grande trabalho de promoção humana”.
Em Malange, o padre luso-venezuelano vai ser reitor do seminário, dirigindo uma equipa que é constituída por mais dois sacerdotes da Fraternidade dos Padres Operários e três religiosas. O convite para ir para Angola, para o mesmo local, fora feito já em 1999, mas só agora tem resposta concreta. Significa também o mergulho numa nova realidade eclesial, o que, de certo modo, o atrai: “Às vezes afogamo-nos nas realidades eclesiais onde estamos. É importante ter outras perspectivas eclesiais, perceber que esta não é a única igreja, relativizar a nossa igreja. A Igreja universal é muito maior.”
Malange fica 430 km a leste de Luanda. Também por lá passou a guerra. “Materialmente, o povo já saiu da guerra, mas psicológica e espiritualmente ainda não”, reconhece o Pe José Carlos, lembrando a mentalidade dos seminaristas timorenses e angolanos que integraram o Seminário de Évora. “A guerra deixou nas pessoas bloqueios muito sérios, uma vontade de fuga, muita insegurança e passividade. Em Malange não há tensões étnicas, mas vivem-se as consequências da guerra”. Um delas é a miséria, devido à falta de iniciativa.
Sobre os 11 anos de Alentejo, Pe José Carlos considera que foram “excepcionais”, “muito positivos”, contra algum preconceito que existe em relação ao modo de ser dos alentejanos. Mas, agora, ficam para trás, pelo que afirma com resolução: “Metade da minha vida passei-a na Venezuela. Mais de uma década no Alentejo. Agora, sem prazo para voltar, vou para Angola. A vida do padre tem de estar centrada na missão”.
J.P.F.
Perfil do Padre José Carlos
José Carlos da Silva da Silva, 41 anos, foi ordenado padre na Sé de Aveiro, por D. António Marcelino, no dia 22 de Outubro de 1995. Com origens familiares em Aradas (Aveiro), José Carlos (“Cali”, como é conhecido entre amigos) nasceu na Venezuela, para onde os seus pais tinham emigrado, e lá iniciou o percurso vocacional que o levou ao sacerdócio ministerial. Sendo diocesano de Aveiro, Pe José Carlos integra a Fraternidade dos Sacerdotes Operários Diocesanos, uma associação de padres.
Desde a sua ordenação, Pe José Carlos integrou a equipa do Seminário Maior de Évora, assumindo outras funções como a pastoral vocacional e a formação do clero. Nos últimos 8 anos, foi o reitor do seminário dessa diocese alentejana, que além dos alunos das dioceses de Évora, Beja e Algarve acolhe ainda seminaristas de Timor, Angola e Cabo Verde.
