Domingo, dia para ser mais

III Etapa Pastoral A terceira etapa pastoral da Diocese de Aveiro aponta como objectivo a valorização do domingo, um dia que precisamos de redescobrir para que todos os outros sejam de libertação.

“Nunca mais é sábado”. Quem nunca soltou este desabafo no meio de uma semana cansativa? E no entanto, para os cristãos, a ânsia devia ser pelo domingo, o dia do Senhor, primeiro dia, o da Criação, e dia da ressurreição, que inaugurou um tempo inesperado, um nova criação, o dia pleno, promessa do dia sem fim da felicidade eterna.

Talvez no desejo do sábado haja reminiscências de outros tempos e sintomas de um tempo actual algo doente.

As reminiscências vêm do tempo em que o sábado era o dia do descanso, o que ainda hoje acontece para os judeus, mas aconteceu igualmente no Império Romano. Durante vários séculos de cristianismo, o dia de descanso e o dia de culto não coincidiam, como explica o Papa João Paulo II, na carta que escreveu sobre a santificação do domingo: “Durante alguns séculos, os cristãos viveram o domingo apenas como dia do culto, sem poderem juntar-lhe também o significado específico de descanso sabático. Só no século IV é que a lei civil do Império Romano reconheceu o ritmo semanal, fazendo com que, no «dia do sol», os juízes, os habitantes das cidades e as corporações dos diversos ofícios parassem de trabalhar. Grande contentamento sentiram os cristãos ao verem assim afastados os obstáculos que, até então, tinham tornado por vezes heróica a observância do dia do Senhor. Podiam agora dedicar-se à oração comum, sem qualquer impedimento” (“Dies Domini”, n.º 64).

Mas o desejo do sábado pode revelar também uma vivência pouco saudável do ritmo semanal. O sábado como válvula de escape de uma semana cheia de stresse, vivida num escritório ou numa repartição, com deslocações enervantes, e que se deseja que passe num ápice. Não é raro encontrar quem usa o sábado para passear e descansar, depois dos cinco dias de trabalho, e aproveita o domingo para ficar recluso, fazendo as lidas da casa, num dia tornado triste, antecipando mais uma semana igual a tantas outras.

A qualidade de cada dia

Precisamos da cura do tempo? O monge alemão Anselm Grun, um dos mais populares autores espirituais, defende uma compreensão do tempo que alguns diriam rotineira, mas que permite revelar a qualidade própria de cada dia. Seguindo a tradição da Igreja, a segunda-feira é dia da Santíssima Trindade. “Sei que não trabalho a partir de uma fonte de energia própria, mas a partir da fonte do Espírito Santo”. Na terça, “recordamos que não percorremos o dia sozinhos, mas que o anjo nos acompanha”. À quarta, recorda-se S. José. A quinta é o dia da Eucaristia, onde se celebra a transformação do trabalho. A sexta é o dia da morte de Jesus, o “tempo em que o Deus eterno produziu em nós a prosperidade, através da morte de Jesus”. O sábado é sempre consagrado a Maria. E a culminar a semana, o dia do Senhor. “A semana tem, assim, uma estrutura. O ritmo sempre igual que nela penetra, vindo de fora, confere à semana a sua marca e não permite que o aborrecimento surja. Na heterogeneidade dos dias encontramos uma tensão e vitalidade interiores. Sinto que este ritmo me é benéfico. Dá-me vida e ânimo, não só para trabalhar, mas também para ter tempo suficiente para ler, rezar e descansar. Depois do domingo, começo o trabalho na segunda-feira de manhã com um novo entusiasmo. Não há qualquer relutância, mas sim o sentimento de que tudo está certo. E nunca fico com a sensação de que tudo é um exagero”, afirma Anselm Grun no livro “Ao ritmo do tempo dos monges”, que, ao contrário do que o título sugere, é uma partilha para que os leigos, que não vivem em conventos nem em mosteiros, vivam o tempo não como um peso, mas como o acontecer da salvação.

Criatividade

para valorizar o domingo

Para valorizar o domingo, reconhecendo que não pode ser para todos um tempo de descanso (além de haver indústrias que não podem parar, pensemos em fornos que demoram dias a ligar e desligar; e se queremos tomar um café ou ir ao cinema, alguém tem de trabalhar…), os bispos portugueses, num documento de 1994, dizem que é preciso uma “grande criatividade”, num clima sócio-cultural diferente e em constante mutação: “Criatividade pastoral, que, sem trair a sua essência, adapte a catequese e a liturgia ao domingo às novas maneiras de sentir e viver o quotidiano da existência”; e “criatividade social, que favoreça a subordinação dos interesses da produção e comercialização de bens e serviços aos valores espirituais, culturais e sociais do domingo”.

A Conferência Episcopal Portuguesa realça que “não são apenas razões de ordem religiosa” que a movem na defesa do domingo. Exige-a “o serviço da humanidade e, concretamente, da vida das pessoas, das famílias e da própria sociedade”. Não se pense, contudo, que o domingo é o dia de não fazer nada. É, se tivermos em conta as sugestões dos bispos (ver destaque), o dia de fazer tudo.

Sete temas da etapa pastoral

1. Domingo – 19 de Janeiro

2. O que são sacramentais? – 16 de Fevereiro

3. Religiosidade popular – 16 de Março

4. Oração e orações – 20 de Abril

5. Grupos de oração – 18 de Maio

6. Lectio Divina – 15 de Junho

7. Equipas de Pastoral Litúrgica – 20 de Julho

Muito mais do que descansar

Segundo o documento “O Domingo numa Sociedade em Mudança”, dos bispos portugueses, o domingo é para:

– viver a missa como uma festa, o que implica “calor humano” na celebração e uma “inteligente sintonia da missa com a vida das pessoas”;

– descansar, ainda que alguns troquem o descanso semanal por um “complemento de salário, pela ânsia de ter mais ou pela fuga ao tédio”;

– ser livre, ocupando-se com desporto, jogos, contactos com a natureza, leitura, música, arte, visita a museus e monumentos, festas, diversões;

– ser mais família, pois o descanso “oferece larga possibilidade de encontros”;

– ser solidário, empenhando-se nas obras de misericórdia, devidamente actualizadas, e no voluntariado, isto é, a “entrega generosa a serviços gratuitos em instituições e actividades de assistência e promoção social e cultural”.

Sabia que…?

* Nas principais línguas, a palavra “domingo” tem sempre origem em duas ideias. Ou “dia do Senhor” (português, “domingo”; francês, “dimanche”; italiano, “domenica”; grego, “kyriaké”; turco, “pazar”…) ou “dia do sol” (inglês, “sunday”; alemão, “sonntag”; chinês, “xīng qī rì”…).

* Os muçulmanos observam a sexta-feira, os judeus guardam o sábado, os cristãos santificam o domingo.

Como ficar pobre

“Ao domingo, é o bem de Deus; é o seu dia, o dia do Senhor. Ele fez todos os dias da semana; ele podia guardá-los a todos; deu-vos seis e não reservou para si senão o sétimo. Com que direito tocais vós naquilo que não vos pertence? Eu conheço dois meios certos de se ficar pobre: é trabalhar ao domingo e tomar o bem de outra pessoa”.

Jean-Maria Vianney,

cura d’Ars (1786-1859)

Documentos de referência sobre o domingo

• “Instrução Pastoral Sobre o Domingo e a Sua Celebração” (1978), da Conferência Episcopal Portuguesa;

• “O Domingo numa Sociedade em Mudança” (1994), da Conferência Episcopal Portuguesa;

• “Dies Domini, Carta Apostólica Sobre a Santificação do Domingo” (31 de Maio de 1998), de João Paulo II