Pastoral Universitária Os jovens frequentam o centro universitário dos jesuítas, em Coimbra, porque é giro, mas “giro” não é a última palavra. Conhecimento e experiência de fé pessoal é que são importantes.
O sucesso dos centros universitários jesuítas não reside num conjunto de atividades comuns, que não existe, mas em proporcionar uma caminhada pessoal de fé, caminhada esta feita de “doutrina e experiência”, defendeu o diretor do Centro Universitário Manuel da Nóbrega – Coimbra.
Gonçalo Castro, padre jesuíta, falava no CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura), na noite de 28 de fevereiro, no âmbito de um ciclo de conferências comemorativo dos 25 anos da instituição aveirense dedicada à pastoral no ensino superior.
O sacerdote explicou que “doutrina” é informação, conhecimento, geralmente ministrada em conferências, tertúlias, cursos. Já “experiência” são as atividades mais práticas, sociais e celebrativas. “Com experiência, mas sem informação, o jovem não tem razões; com informação mas sem experiência, não vive o que se anuncia”, rematou. Revelou, por outro lado, que nos centros jesuítas não são os padres que vão ao encontro dos universitários, mas são os próprios estudantes, animadores, que vão ao encontro dos outros universitários. “Usamos os jovens para chamar os jovens. Se eles vêm e encontram o padre a servir bebidas no bar, é para que perguntem: «Mais que mais faz ele?». Vêm por que é giro. Mas «giro» não é a última palavra”. No fundo, disse, “são os jovens que nos procuram: porque temos história” e porque “encontram no CUMN uma segunda casa”.
Eos professores?
Contudo, respondendo a uma pergunta do moderador o professor Carlos Borrego, que lembrou que o Centro Universitário aveirense começou por apostar numa pastoral dirigida aos professores, notou que os centros jesuítas, ou pelo menos o de Coimbra, têm essa lacuna. Não conseguem chegar a muitos professores. “São os professores que formam os alunos. Muito do impacto vem daí. Mas não temos muitas respostas quando promovemos iniciativas destinadas aos professores, mesmo as que não ocupam muito tempo”, afirmou P.e Gonçalo Castro.
Noutro sentido, sem pretender ser antropólogo ou sociólogo, o P.e Gonçalo Castro apontou uma diferença entre os jovens de hoje e os de há uns anos. Numa recente Queima das Fitas conimbricense, “duas semanas que não existem, ou melhor existem para a cerveja e os concertos do parque”, um jovem católico contou com orgulho os seus excessos etílicos, ao ponto de ter perdido o telemóvel. “O sr. padre nunca cometeu excessos?”, perguntou o jovem, que “até é de ir à missa”. “Cometi”, respondeu o padre, “mas não me orgulho disso”. Uma geração sem vergonha do erro?
Poucos, mas diferentes
De acordo com o sacerdote jesuíta, “ser católico, hoje, é ser um no meio de muitos; por vezes, um contra muitos, um diferente dos outros”. É que “o universo dos que são batizados ainda é grande, mas é sabido que ser batizado não significa ser comprometido com a fé”. “Somos poucos”, disse, “mas nessa minoria nasce o sentimento de orgulho de pertencer a uma realidade diferente”. Nesta linha, notou que em alguns meios – Lisboa foi o caso referido – a tendência é para que a minoria se torne mais visível através de iniciativas tradicionais e revivalistas. Deu como exemplo a adoração do Santíssimo, ação que o CUMN não promove. Mas acrescentou uma outra inovadora: Missas com arte. Uma vez por semana, à quinta-feira, a homilia da missa é feita com a explicação de uma grande obra de arte, um quadro, um trecho de uma ópera, um romance.
Três notas finais. Gonçalo Castro desconfia das celebrações de massas, nomeadamente a bênção das pastas, ficando de algum modo admirado por em Aveiro chamar-se “bênção dos finalistas”. Adiantou que os jesuítas não têm uma pastoral vocacional específica, pois a questão da vocação é posta em todos os âmbitos. E sublinhou que se outras espiritualidades realçam mais aspetos como a dimensão familiar, comunitária ou “mais de partilha” do cristianismo, os jesuítas estão mais apostados em “proporcionar a experiência de fé pessoal”, começando não pelas pontas, como poderia ser, por exemplo, uma discussão sobre o dogma da infalibilidade papal, mas pelo centro, que é Jesus Cristo.
J.P.F.
Próxima conferência na terça-feira
Na terça-feira, 13 de março, estarão no CUFC, para continuar o ciclo sobre pastoral universitária, P.e Nuno Santos, do Instituto Justiça e Paz de Coimbra, e P.e António Bacelar, do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária do Porto. Modera D. António Francisco, Bispo de Aveiro.
